O desafio de transformar compromisso climático em inclusão produtiva pós-COP30

Políticas Públicas
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Imagem: ChatGPT

 

Por Vitor Hugo Neia

 

A desigualdade estrutural continua limitando a mobilidade social e ampliando os efeitos da crise climática sobre a população brasileira. As condições de acesso e permanência no mercado de trabalho seguem desiguais e, sem programas consistentes de formação, aperfeiçoamento e requalificação capazes de alcançar periferias urbanas e áreas rurais, uma parte considerável dos jovens brasileiros corre o risco de ficar à margem dos 6,4 milhões de empregos verdes com potencial para serem criados no país até 2030. O dado é do estudo Empregos do Futuro, realizado pela Agenda Pública, em parceria com a Fundação Grupo Volkswagen.

Diante desse cenário, a COP30 foi fundamental ao reunir lideranças de todo o mundo em Belém para discutir a transição ecológica a partir da realidade amazônida, brasileira e dos países em desenvolvimento. O pano de fundo das negociações evidenciou que nenhuma estratégia de descarbonização se sustenta sem enfrentar o abismo social que define o acesso a trabalho digno, renda, moradia e educação.

Ainda que os resultados tenham ficado aquém das expectativas, os documentos finais da conferência reconheceram que uma transição verdadeiramente justa precisa considerar os impactos mais acentuados das mudanças climáticas sobre as populações mais vulnerabilizadas, incluindo indígenas, mulheres e – pela primeira vez – afrodescendentes, bem como seu protagonismo no enfrentamento às urgências do clima. Ao mesmo tempo, após alguns anos sem uma COP em um país democrático, a sociedade civil organizada também foi essencial para as discussões no Pará. Dezenas de eventos, encontros e debates colocaram as organizações e movimentos sociais no centro desse diálogo. Um dos exemplos dessa articulação foi a Casa Sul Global, uma plataforma de articulação política, mobilização, produção de conhecimento e colaboração entre atores da filantropia do Sul Global idealizada pela Rede Comuá e que contou com o patrocínio da Fundação Grupo Volkswagen.

Durante a realização da COP30, a Fundação Grupo Volkswagen também lançou o estudo “Empregos do Futuro no Brasil: Transição Justa para Economias de Baixo Carbono”, em evento na Fundação Getulio Vargas, em São Paulo. Desenvolvida pela Agenda Pública, a pesquisa conecta transição justa e inclusão produtiva e mapeia oportunidades que vão de energias renováveis e mobilidade elétrica à bioeconomia e à agricultura regenerativa. Além disso, reforça a necessidade de territorializar a transição ecológica, substituindo modelos baseados em cadeias intensivas em carbono por ecossistemas produtivos capazes de distribuir valor localmente, reconhecer saberes tradicionais e oferecer suporte técnico a pequenos empreendedores nas diversas regiões do País.

Para que essa mudança se materialize, o estudo aponta dois eixos de intervenção convergentes: qualificação dos trabalhadores e financiamento direcionado às cadeias de valor de baixo carbono. A proposta combina a oferta de cursos técnicos e superiores com linhas de crédito público e privado para negócios comprometidos com a transição energética. Cada real investido em formação e capital produtivo retorna ao território na forma de renda, tributos e inovação, rompendo o ciclo que historicamente força trabalhadores a migrar em busca de oportunidades distantes, acentuando desigualdades regionais.

Nesse contexto, a mobilidade social passa a se relacionar diretamente à adaptação climática. Quando um jovem conclui um curso técnico e consegue emprego na manutenção de painéis solares ou na logística da reciclagem, por exemplo, ele amplia a renda familiar e fortalece sua capacidade de escolha. A renda estável reduz vulnerabilidades e diminui o peso das variáveis climáticas, que impactam de forma mais direta comunidades periféricas e tradicionais, sobre a vida cotidiana.

O desafio agora é impedir que as declarações da COP30 se dissolvam em compromissos abstratos. Empresas precisam incorporar metas de contratação inclusiva e formação intensiva de mão de obra em seus planos de descarbonização. Bancos de desenvolvimento e instituições de crédito devem condicionar recursos a resultados sociais e ambientais, ao mesmo tempo em que o poder público investe em políticas de transição ecológica, mitigação e adaptação às mudanças climáticas, garantindo a participação da sociedade civil e sem se esquecer dos pequenos e médios empreendedores. A filantropia, por sua vez, precisa abandonar iniciativas pontuais e adotar financiamentos plurianuais que fortaleçam organizações comunitárias que atuam na linha de frente.

A conferência em Belém terminou, mas o trabalho prossegue. Se o Brasil, que permanece na presidência da COP até novembro de 2026, conseguir avançar na conexão da agenda climática ao enfrentamento à pobreza e ao racismo ambiental, apresentaremos ao mundo um modelo de transição justa que não deixará ninguém para trás. Caso contrário, perderemos uma oportunidade histórica de transformar a urgência ambiental em alavanca concreta de mobilidade social para a nossa e as próximas gerações.

 

*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.

 

Vitor Hugo Neia

Vitor Hugo Neia é diretor-geral da Fundação Grupo Volkswagen e integra a organização desde 2018. Mestre em História Social pela Universidade de São Paulo (USP), possui sólida experiência em planejamento, gestão e execução de iniciativas no terceiro setor, com ênfase em projetos de inclusão produtiva, desenvolvimento comunitário e redução de desigualdades sociais.