O que o cinema brasileiro pode nos ensinar sobre gestão de OSC
Cultura Organizacional
Por Erika Sanches Saez – Kika Saez
O cinema brasileiro vive um momento especial — e não por acaso. Depois das indicações ao Oscar de Ainda Estou Aqui, em 2025, este ano O Agente Secreto chega com quatro indicações e chances reais de levar alguma estatueta: melhor filme, melhor filme estrangeiro, melhor ator e melhor elenco. Não é sorte, nem alinhamento dos astros. É talento, mas também trajetória, estratégia e trabalho acumulado.
Fazer um grande filme é o coração da coisa. Assim como uma grande missão, combinada a um projeto ou programa eficaz, é o coração de uma organização da sociedade civil. Mas o coração, sozinho, não sustenta o corpo inteiro. Uma boa ideia, um bom roteiro ou uma fotografia bonita não bastam para que o filme circule, seja visto, reconhecido e permaneça. Do mesmo modo, um projeto maravilhoso, isoladamente, não sustenta uma organização.
Há um trabalho muito fino — e muitas vezes invisível — acontecendo por trás das câmeras: articulação, posicionamento, comunicação, leitura de contexto, decisões sobre onde e como o filme vai existir no mundo. Nas organizações da sociedade civil, esse trabalho de bastidor é o que chamamos de desenvolvimento institucional.
O Oscar não premia apenas o que está na tela. Premia também o que foi feito fora dela.
Outro paralelo potente nas indicações de O Agente Secreto é a categoria de melhor elenco. Ela reconhece algo que quem trabalha em equipe sabe bem: o protagonismo não sustenta um filme sozinho — menos ainda o diretor ou a diretora. Um elenco forte não é apenas a soma de talentos individuais, mas a capacidade de trabalhar em conjunto, sustentar ritmo, confiar uns nos outros e dividir responsabilidades.
No cotidiano das OSCs, esse “melhor elenco” costuma ter nomes pouco celebrados, mas absolutamente centrais. Quem é a Tânia Maria da sua organização? Quem segura o cotidiano, resolve o que não aparece nos relatórios e mantém o projeto de pé quando os holofotes estão desligados? Essa pessoa está sendo desenvolvida, cuidada e valorizada como merece?
Há também o papel da direção. Ela quase nunca está na frente da câmera. Durante o filme, aparece de forma quase invisível. Dirige olhando para a cena — e não estando nela. Por trás das câmeras, toma decisões difíceis fora do enquadramento e, sobretudo, cria as condições para que outros brilhem. O bom diretor não disputa cena com o elenco — constrói o palco. Quando o prêmio de melhor filme vem — aquele que celebra o conjunto da obra — só então a direção sobe ao palco para receber, não como estrela solitária, mas como responsável pelo todo. Antes disso, o palco é do elenco.
Essa metáfora ajuda a pensar o lugar das lideranças nas organizações da sociedade civil hoje. Saber quando estar — e quando sair — de cena. Saber quem deve estar no palco em cada momento. Orquestrar vozes, em vez de centralizá-las. Proteger a equipe nos momentos difíceis e assumir a responsabilidade institucional quando o reconhecimento — ou o fracasso — chega.
O cinema brasileiro nos lembra que talento importa, qualidade importa, causa importa. Mas sem estrutura, sem equipe forte, sem estratégia e sem lideranças que saibam dirigir mais do que aparecer, o filme não chega longe. Desenvolvimento institucional também é isso: garantir que bons projetos não dependam de milagres — nem de protagonistas exaustos — para existir, crescer e durar.
A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.
