O Ritmo Invisível do Presente
Direitos Humanos
Por André Soler, fundador da SP Invisível
Dr. Lonnie Smith, meu artista de jazz favorito. Ele toca órgão, um instrumento difícil de executar e também de perceber. A primeira vez que ouvi a terceira faixa do seu álbum All in My Mind, não consegui identificar o que ele estava tocando. Eu ouvia a bateria, a guitarra, mas nada do órgão.
E, no entanto, ele estava lá o tempo todo.
Enquanto o jovem guitarrista brilhava em seu solo e o baterista tocava alto, Lonnie permanecia constante, seguro, presente. Sua música não competia, não se impunha. Só era percebida por quem desenvolveu paciência e presença suficientes para captar sua profundidade.
Assim também é no trabalho social: muitas vezes, o que sustenta o futuro não aparece nas manchetes. É a escuta silenciosa, o cuidado diário, o gesto discreto — mas que, juntos, criam a harmonia capaz de transformar a sociedade.
O que me move
Quem me move é o Maestro. Não conheço a música inteira, apenas algumas partes.
Quero transformar a vida de muitas pessoas, quero que elas tenham acesso a oportunidades, que possam ganhar seu sustento com dignidade, que saiam das ruas, tenham uma casa, formem uma família. Quero que cada homem que consiga se reerguer possa ser um bom pai e cada mulher, uma boa mãe.
O tecido invisível do futuro
O que você come, com quem você fala, os pensamentos que nutre, os hábitos que repete — tudo isso é o tecido invisível do futuro, sendo costurado em silêncio no agora.
Não há neutralidade no presente. Cada escolha é um fio que, cedo ou tarde, se entrelaça em uma trama maior.
Se repetimos diariamente atos de coragem, disciplina e amor, o tecido que se forma é sólido, belo e resistente. Se repetimos distrações, descuidos e indiferença, o tecido se rompe facilmente e não sustenta o peso das desigualdade que carregamos como sociedade.
O futuro não aparece por acaso. Ele é cultivado hoje, no detalhe silencioso de cada gesto. Não nasce de improviso: é composto no presente, acorde por acorde, numa sinfonia cuja partitura só o Maestro conhece.
Cada escolha de hoje é um som que ressoa no amanhã. O futuro não é caos, mas jazz: liberdade que só existe porque há ritmo, harmonia e base. Coragem, amor, integridade e fé são os acordes que sustentam essa melodia que atravessa o tempo.
O agora é sagrado
Quando entendemos isso, o presente deixa de ser banal e se torna sagrado.
Ele é o único lugar onde podemos ressignificar histórias e abrir caminhos de esperança. O passado já não pode ser mudado, o futuro ainda não chegou. Tudo o que existe é este instante — e é nele que podemos reescrever o rumo da história.
O presente é um portal: ou o atravessamos conscientes, criando intencionalmente, ou nos deixamos arrastar, construindo sem perceber um amanhã que não reflete o que desejamos como sociedade.
Conclusão
Viver o presente como laboratório do futuro é ser como Dr. Lonnie Smith: constante, firme, confiante.
Não se trata de buscar a nota mais alta, mas de sustentar a harmonia que dá sentido à música.
O futuro nasce da coragem de permanecer.
*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.
