O uso de telas e smartphones por crianças e adolescentes com e sem deficiência

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Imagem: Canva

Por Beto Pereira

De acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente, criança é considerada aquela que possui até 12 anos incompletos, e adolescente, entre 12 e 18 anos.  Nós, pessoas com deficiência, somos aquelas que têm impedimento de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, o qual, em interação com uma ou mais barreiras, pode obstruir a participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com os demais, segundo a Lei Brasileira de Inclusão.

Cada criança e adolescente tem suas próprias características e necessidades. Com aquelas com alguma deficiência, não é diferente. A depender da especificidade, são utilizados recursos comunicacionais para o desenvolvimento, como tradução e interpretação em Libras, legenda, áudio, narração de texto, audiodescrição e imagens, recursos de adaptações táteis e funcionais, entre outros.

Elas – crianças e adolescentes com alguma deficiência – também devem ter garantido o direito de descobrir, brincar e aprender. Por isso, enfatizo a importância da interação direta, contínua e presencial com pessoas com e sem deficiência e com distintos ambientes. Essa interação é fundamental para que possamos compreender a nós mesmos, o outro e nosso entorno.

Para aquelas que são cegas ou com baixa visão como fui, o acesso aos sons, cheiros, texturas, temperaturas e às variações e contrastes de cores são indispensáveis para que aprimorem as percepções de mundo.

No processo de alfabetização dessas pessoas, o Braille e os materiais adaptados e ampliados são imprescindíveis para a escrita e leitura. Nessa etapa de desenvolvimento, qualquer tentativa de substituir por completo esses recursos representa um grande risco para a formação e escolarização do nosso grupo.

Com os avanços dos recursos gratuitos de tecnologia assistiva, como leitores e ampliadores de telas, cada vez mais nós, adultos, crianças e adolescentes com deficiência visual, temos utilizado computadores e smartphones em nossas atividades cotidianas.

Ocorre que, embora importantes, por si só, tais recursos não garantem a inclusão e acessibilidade plena. Por isso, recomendo o envolvimento dos familiares, educadores e toda sociedade, além da utilização de ferramentas tecnológicas adequadas de forma mediada, progressiva, responsável e saudável, em todo o processo do desenvolvimento infantil.

Como sabemos, se por um lado as tecnologias podem ser positivas quando bem utilizadas, por outro, o uso incorreto e excessivo pode agir no sistema cerebral da garotada, aumentando a sensação de prazer e recompensa, causando dependência, irritabilidade, desatenção, impulsividade, sedentarismo, obesidade infantil, problemas de postura, dificuldade de sono e problemas oculares e auditivos.

Justamente por isso, muitos especialistas com os quais compomos alguns grupos de trabalho, têm enfatizado a importância da classificação indicativa: para crianças abaixo de dois anos, o tempo de exposição às telas deve ser zero. Para a faixa etária de dois a seis anos, de uma a duas horas por dia. Entre seis e onze anos, de três a no máximo quatro horas. E a partir dos 12 anos, a exposição pode ser um pouco maior.

Para o tempo precioso fora das telas, a sugestão é brincar com objetos de diversas texturas e cores, e se divertir ao ar livre, em uma pracinha pública.

Também devemos considerar fatores como a qualidade e a necessidade dessa exposição: por exemplo, se é para uma atividade escolar, um bate-papo com algum familiar por vídeo ou se elas estão consumindo programas e conteúdos adequados para sua faixa etária – ressalto a relevância da mediação parental e dos cuidadores, assim como da responsabilidade social e jurídicas das empresas e dos desenvolvedores.

Não trato aqui de desconsiderar os aspectos positivos das tecnologias, mas de pontuar que por si só não dão conta de garantir o desenvolvimento saudável das crianças e adolescentes, sejam eles com ou sem deficiência. É com presença, diálogo, respeito, afeto e cuidado que o melhor interesse é alcançado.

*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.

Sobre o autor:

Beto Pereira é Assessor de Acessibilidade e Inclusão da Laramara, Associação Brasileira de Assistência à Pessoa com Deficiência Visual, e Presidente da Organização Nacional de Cegos do Brasil.