Por que grandes líderes fracassam no terceiro setor
Cultura Organizacional
Por Thiago Crucciti
Há conversas que valem um MBA. Recentemente, numa troca com dois amigos (Eduardo Nunes e João Diniz) caímos numa pergunta incômoda que, sinceramente, eu gostaria que todo líder que chega ao terceiro setor escutasse logo no primeiro dia:
Por que tanta gente inteligente, experiente, com resultados brilhantes no mercado, fracassa quando tenta transformar uma organização social?
Olhando de fora, parece simples. Afinal, “gestão é gestão”, certo? Errado. E vou te dizer por quê.
No centro dessa questão está um ponto que Edgar Schein explicaria muito bem: cultura organizacional. Não aquela que está na parede ou no PowerPoint, mas os pressupostos invisíveis que regem comportamentos, decisões e até silêncios nas organizações sociais.
Quem chega de fora, muitas vezes, comete um erro fatal: acredita que vai mudar a cultura como quem troca a embalagem de um produto. Mas, como Schein ensina, cultura não é uma camada superficial, é a alma coletiva da organização, algo construído ao longo de décadas de história, propósito e relações.
Esse é o primeiro choque.
O segundo erro é não entender que, no terceiro setor, a maioria dos problemas não é técnica, mas adaptativa, como nos lembra Alexander Grashow, ou seja, não basta ter “as melhores práticas” ou repetir o que funcionou no setor privado. Aqui, as dores são outras: envolvem poder, valores, identidade, e não têm soluções rápidas. Exigem humildade, escuta profunda e disposição para caminhar junto.
E há um terceiro ponto que ninguém te conta antes de chegar aqui, mas Daniel Pink explica com precisão: no terceiro setor, ninguém é movido só por salário ou bônus. O que mobiliza as pessoas é propósito. E propósito não é um slide bonito na apresentação; é a convicção de que cada decisão toca vidas reais. Se você não se conecta com isso, se não vibra por dentro com a causa, a sua liderança será vazia e suas equipes vão perceber isso muito antes de você.
Por fim, John Kotter nos dá o aviso final: mudança, mesmo no setor social, requer método. Não adianta romantizar a causa. Você vai precisar construir coalizões, gerar consensos mínimos e entregar resultados consistentes para ter espaço para mudanças. Sem isso, você será apenas “mais um” que tentou e não conseguiu.
Esses quatro autores me ajudaram a organizar essa conversa e a entender que liderar no terceiro setor não é uma transferência de competências, é uma transição de consciência.
Se você está chegando agora no setor social, ou pensa em vir, aqui vai um convite honesto:
- Antes de querer mudar tudo, mergulhe na cultura. Ouça, observe, respeite.
- Pergunte-se quais problemas da organização são técnicos (e talvez você possa ajudar) e quais são adaptativos (e você vai precisar caminhar junto).
- Seja honesto: você se importa de verdade com a causa? Você quer transformar vidas, ou apenas sua carreira?
- Lembre-se: até no terceiro setor, mudança exige método, disciplina e alianças.
E, se você já é do setor, a reflexão também vale: será que temos, de fato, preparado o terreno para acolher essas pessoas que chegam de fora? Ou estamos, inconscientemente, deixando que tropecem sozinhas nos nossos códigos e silêncios?
O terceiro setor não precisa de salvadores, precisa de aliados.
E a melhor forma de começar uma aliança, às vezes, é com uma boa conversa.
*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor
Sobre o autor: Thiago Crucciti é Diretor Nacional da Visão Mundial Brasil, fundador da start-up social Máquina do Bem e investidor.

17/07/2025 @ 20:52
De uma forma sucinta e precisa, esse artigo traz uma percepção muito sensível de como realmente organizações do terceiro setor funcionam. Quem conhece, sabe a dinâmica que rege e orienta todas as ações de uma organização: o prazer em transformar vidas.
19/07/2025 @ 11:00
Muito boa reflexão Thiago.
22/07/2025 @ 22:58
Excelente reflexión Thiago. Definitivamente entender y promover la cultura requerida, conectar a las personas con la causa y tener un equipo de colaboradores cuya misión y objetivo de vida se conecte con la mision de la organización son clave para mostrar y gestionar e implementar con coherencia y convicción cada acción.