Resiliência climática: o assunto que precisa ganhar centralidade na COP30

Políticas Públicas
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Imagem: ChatGPT

 

Por Daniel Grynberg

 

À medida que o calendário avança e nos aproximamos da COP30, em Belém, o que deveria ser um momento de consolidação das metas globais de redução de emissões se transforma em um alerta incômodo. Ainda que o Acordo de Paris tenha estabelecido um roteiro claro, quase metade dos países não apresentou novos compromissos e, entre os que o fizeram, a maioria não trouxe metas revisadas até 2035. Esse atraso compromete a credibilidade das negociações internacionais e coloca em xeque a capacidade coletiva de manter o aquecimento global dentro do limite de 1,5 °C.

Quando olho para o Brasil, vejo que essa falta de avanço internacional tem reflexos imediatos no nosso cotidiano. Secas mais longas, enchentes destrutivas, ondas de calor cada vez mais intensas e perdas econômicas bilionárias mostram que a crise climática deixou de ser uma abstração para se tornar um fator central na vida das pessoas. O impacto sobre a agricultura, a energia, a infraestrutura urbana e a saúde pública é evidente, e a cada novo evento extremo fica mais claro que não basta falar apenas em mitigação de emissões.

O debate sobre adaptação e resiliência precisa ganhar a mesma força, porque não estamos mais discutindo apenas como evitar cenários futuros, mas sim como lidar com aquilo que já está acontecendo. Investir em infraestrutura capaz de suportar eventos extremos, estruturar políticas sociais que protejam os mais vulneráveis e planejar a economia considerando riscos climáticos não pode ser visto como detalhe ou complemento da agenda, mas como parte essencial dela.

Ignorar essa dimensão tem um custo que cresce ano após ano. Cada vez que deixamos de estabelecer estratégias concretas, ampliamos desigualdades e fragilizamos países que já convivem com crises sobrepostas. Por outro lado, quando falamos em resiliência, falamos também de oportunidades: de reduzir perdas e danos, mas, sobretudo, de preparar pessoas e comunidades para esse novo cenário. Isso significa investir em educação de qualidade, em capacitação profissional e em geração de empregos em setores que já nascem sustentáveis, como a agricultura familiar de baixo carbono, a bioeconomia e o empreendedorismo local.

Quando uma comunidade amazônica, por exemplo, tem acesso a internet, formações e ferramentas para empreender, ela não apenas se adapta aos impactos do clima, mas constrói novas possibilidades de futuro. O mesmo vale para jovens que encontram oportunidades de capacitação para disputar vagas no mercado de trabalho verde, ou para agricultores que recebem apoio técnico para aliar produtividade com manejo sustentável. É nessa combinação entre adaptação, educação e geração de renda que surgem respostas duradouras para a crise climática.

É por isso que a realização da COP30 no Brasil carrega um peso especial. Ser anfitrião não significa apenas abrir as portas para o mundo, mas assumir a responsabilidade de liderar pelo exemplo. Nosso país pode mostrar que é possível alinhar mitigação e adaptação, que a transição sustentável precisa ser construída com ambição, mas também com medidas práticas capazes de proteger quem mais sente os efeitos da crise.

Se quisermos que o encontro em Belém seja lembrado como um ponto de virada, precisamos deixar claro que não basta discutir promessas de longo prazo enquanto milhões de pessoas enfrentam os impactos no presente. A resiliência climática não é pauta secundária, é condição para que qualquer avanço em emissões faça sentido. O futuro, afinal, não pode esperar que as metas finalmente saiam do papel; ele já está sendo definido pelas escolhas — ou pela inércia — que adotamos agora.

 

*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.

 

Daniel Grynberg

Daniel Grynberg é diretor executivo do Grupo +Unidos, bacharel em Administração de Empresas pelo Insper e mestrado em Gestão Pública pelo Insper.