ONGs devem promover diversidade do mix de doadores, juntando grandes e pequenos
Cultura de Doação
Por Edmond Sakai
Bill e Melinda Gates, fundadores de uma das maiores fundações filantrópicas do mundo, em uma entrevista em 2021, falaram sobre a importância dos pequenos doadores para a manutenção de ações e projetos de impacto social. O que eles disseram vem muito de encontro com minha experiência no Terceiro Setor, seja nos EUA, seja em nosso País e continua ainda muito atual.
No artigo, destaco os principais pontos da entrevista e como construir um mix mais diverso de doadores, que comprovadamente também aumenta a diversidade dos beneficiados e potencializa o resultado das ações.
No Q&A da entrevista, que ocorreu durante o Greater Giving Summit, os filantropos falaram muitas coisas interessantes sobre o tema “A importância das doações do dia a dia”. Todos nós que trabalhamos no Terceiro Setor sabemos como, por um lado, a demanda por assistência social de todos os tipos explodiu ainda mais na pós-pandemia e, por outro, como ficou muito mais difícil para as organizações manterem o fluxo da arrecadação de recursos via doações. Já abordei a questão aqui, em um de meus artigos para o Observatório do Terceiro Setor.
No começo do Q&A, Melinda Gates admite que esse é o grande desafio, mais sentido pelas organizações menores e locais, que estão na linha de frente do combate aos enormes efeitos sociais da então pandemia. “São elas que conhecem e vivem nessas comunidades, sabem o que é preciso e o que está acontecendo com seus vizinhos”, afirmou. Mas o que achei mais interessante foram as respostas de Bill e Melinda sobre a importância de se criar um mix diverso de doares, que inclui os bilionários que fazem grandes doações, por meio de iniciativas como o Giving Pledge, liderado por Gates e Warren Buffet, e milhões de pequenos doadores, pessoas comuns que separam uma pequena soma por mês para entidades e projetos que eles conhecem ou atuam como voluntários em alguma causa.
Bill Gates afirmou que, se pudesse escolher entre dobrar as doações dos grandes ou dos pequenos doadores, escolheria os pequenos, “por causa do engajamento profundo” deles. Ele lembrou que, nos EUA, os pequenos doadores do dia a dia são responsáveis por 70% dos valores arrecadados pelas ONGs. Gates também ressaltou que esses doadores provêm um valioso feedback, pois atuam diretamente nas ações sociais. Eles sabem se o programa de banco de alimentos está atendendo à demanda ou se um programa de reforço escolar está funcionando bem.
Maior diversidade de doadores gera maior diversidade de beneficiados
Melinda disse que a diversidade de perfis entre os doadores também garante maior pluralidade entre quem recebe os recursos e executa as ações. Ela lembrou que apenas 1,6% da soma da filantropia chega a entidades e ações focadas em mulheres e meninas, por exemplo. Ela afirmou que, com a maior diversidade no mix de doadores, os grandes filantropos também se sensibilizam e passam a destinar mais doações a iniciativas focadas em minorias e comunidades vulneráveis.
Eles também abordaram os desafios de manter a longo prazo o grande “boom” de doações que ocorreu no último ano devido à pandemia. Plataformas digitais foram apontadas como soluções promissoras para conectar gente disposta a doar a organizações que promovem ações de grande impacto para quem mais precisa.
Para Bill, um grande doador pode ser decisivo para estabelecer a infraestrutura de uma fundação comunitária, por exemplo, e então pequenos doadores podem garantir a manutenção das atividades, cobrindo os custos mensais da operação. Ele também contou que a Microsoft complementa em igual valor as doações feitas por seus funcionários, e esta é uma ótima forma de grandes e pequenos doadores unirem forças para potencializar a arrecadação dos recursos.
Aposta em mix diverso de doadores
Gostei muito do conteúdo, pois ele vai de encontro com a minha experiência direta atuando em ONGs e este tema continua muito pertinente. Sempre dependi principalmente das pequenas doações, mas elas são muito potencializadas pela visibilidade que alguns grandes doadores, pessoas públicas com bastante poder de influência em suas comunidades, oferecem. Além, é claro, de seus recursos financeiros – investimentos sociais – serem sempre muito bem-vindos.
No final das contas, não importa saber se os pequenos ou os grandes são mais importantes. Todos são investidores sociais. O importante é juntar forças, criar laços e redes de solidariedade, gerando sinergia, em que o todo é mais que a soma das partes. Para que a onda de doações trazidas por aquela crise sanitária global se mantenha, é necessário continuar a tornar o processo de doação mais simples e fácil ao doador e investir na transparência sobre a destinação dos recursos e a efetividade do impacto que eles geram.
*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor
