Um fenômeno dentro e fora das quatro linhas

Por Andrea Wolffenbuttel
Seu nome é Ronaldo Luís Nazário de Lima, mas pode chamá-lo de Ronaldo Fenômeno. É assim que ele foi batizado pela imprensa italiana e é conhecido no mundo todo. O nome não poderia ter sido mais bem escolhido. Ele é mesmo um fenômeno. É, até hoje, o mais jovem atleta a ser escolhido o melhor jogador do mundo pela FIFA. Em 1997, a Inter de Milão comprou seu passe ao Barcelona por um valor jamais pago anteriormente por um jogador. E é um dos poucos futebolistas a terem o privilégio de vestir as camisas dos dois arquirrivais espanhóis: o Barcelona e o Real Madrid.
Mas fenômenos não são sempre positivos, e Ronaldo enfrentou dificuldades que exigiram muito dele. Lesões graves o tiraram de campo por muito tempo. Problemas psicológicos também o afligiram. A torcida do Real Madrid o recebeu com vaias. E foi acusado de ser responsável pela derrota da seleção brasileira na final da Copa do Mundo 1998, contra a França. Tudo isso forjou uma personalidade lutadora, resiliente e vitoriosa. Que enxergou as adversidades como um caminho para ser mais humano, sensível e solidário. Esse aprendizado se transformou em um poderoso trabalho social, que, hoje, ele realiza por meio da Fundação Fenômenos.
A seguir, confira a entrevista exclusiva de Ronaldo Fenômeno no Observatório do Terceiro Setor:
Você criou a Fundação Fenômenos em 2012, um ano após anunciar sua aposentadoria. Quando você começou a se preocupar com problemas sociais?
Eu sou de Bento Ribeiro (periferia do Rio de Janeiro) e vivi na pele muitos dos problemas sociais que afetam grande parte da população — e tem muita gente em condições ainda piores do que as que eu cresci. O futebol mudou a minha vida, mas o desequilíbrio dos fatores sociais impacta negativamente a sociedade como um todo. Desde que o esporte me abriu as portas do mundo, eu tento, de alguma forma, fazer a diferença na vida de outras pessoas, promovendo a conscientização e a mobilização contra a pobreza e a fome em diversas campanhas, eventos e projetos. Mas foi só na aposentadoria que eu consegui parar e pensar com mais profundidade em como contribuir de forma estruturada. Assim nasceu a Fundação Fenômenos: para apoiar quem já está fazendo a diferença; usar minha visibilidade e acessos para somar em causas que importam. Mais que contribuição, para mim é retribuição.

Quais foram as principais realizações da Fundação até hoje?
A Fenômenos nasceu de uma ideia simples, mas poderosa: usar a visibilidade do esporte e da cultura para gerar impacto social real. E eu posso dizer, com muito orgulho, que a gente tem feito isso de forma consistente, com seriedade e coração. Já conseguimos apoiar centenas de iniciativas em todo o Brasil — muitas delas lideradas por pessoas que vivem na pele os desafios das periferias, favelas, comunidades indígenas, quilombolas… enfim, são lideranças como essas que movem o país e a nossa missão é fortalecer seu protagonismo. Nos últimos anos, através do Fenômenos Academy — nossa plataforma gratuita de formação para lideranças sociais que se tornou nosso carro-chefe —, alcançamos milhares de pessoas com conteúdos de gestão, impacto e mobilização. E o mais legal é ver essas lideranças multiplicando o conhecimento nas suas comunidades. Entre muitas outras realizações, há uma intangível e imensurável que eu não poderia deixar de citar: construímos confiança. É ela que permite que sigamos firme no nosso propósito. A gente trabalha com transparência, escuta e parceria. Não é sobre caridade. É sobre justiça social, sobre acreditar que todos merecem oportunidade e dignidade.
Das diversas doações que você fez, qual foi a que mais te realizou?
Não costumo divulgar minhas doações, mas posso dizer que, desde que nasceu a Fundação Fenômenos, é nela que canalizo a minha vontade de fazer a diferença. Através dela, já entregamos muito valor e cada ação me realiza de forma única. Uma que me marcou bastante foi a mobilização de recursos para atender comunidades vulneráveis em várias regiões do Brasil durante a pandemia do Covid-19. Doamos cestas básicas, kits de higiene e apoiamos projetos locais. Ver a solidariedade acontecendo em rede me tocou muito. Para além da doação, era proteção da vida; dignidade sendo garantida num momento muito difícil que o mundo enfrentava. Eu me senti realizado por fazer parte de um movimento coletivo de cuidado tão amplo.

Você acha que existe um ambiente receptivo, no universo do futebol, para apoio a projetos sociais?
Existe e, mais que isso, deve existir, afinal, falamos do esporte mais popular do mundo. Seu poder para promover mudanças sociais positivas é imenso. O futebol é caminho para inclusão, educação e desenvolvimento comunitário; e o apoio de clubes, jogadores e patrocinadores é primordial para ampliar o alcance e o impacto desses projetos. Porém, é um campo que ainda precisa amadurecer. Muitas vezes, esse potencial é subutilizado em termos de impacto social. Ainda tem muito preconceito, muita visão de que projeto social é caridade e não uma estratégia de transformação de longo prazo. De todo modo, acho que toda a cadeia produtiva da indústria já começou a entender que responsabilidade social não é só “fazer o bem”, mas também fortalecer o ecossistema do esporte, dar oportunidade pra quem vem de baixo, criar uma cultura mais justa.
Que dica você daria para alguma estrela do futebol que quisesse se envolver com filantropia?
Diria que toda grande mudança começa com um primeiro passo. Pequenas ações têm um valor enorme. O mais importante, para começar, é você encontrar o que faz você se sentir realmente conectado e comprometido. E a diferença entre caridade e transformação está no compromisso. Por isso, tudo o que fizer, faça de todo o coração. As pessoas sentem quando é de verdade e o impacto positivo genuíno, com resultados significativos e duradouros, só pode vir de intenções sinceras. Seu ponto de partida já é num lugar de muita visibilidade e alcance, então basta que você se importe verdadeiramente com o que vai se envolver e promover. Como encontrar? Escuta. Tem muita gente para você ouvir, na linha de frente, já fazendo a diferença. Visita, conversa com lideranças de comunidade, com quem entende. Você não precisa reinventar a roda. Você pode somar muito colaborando com quem já faz.

Se você pudesse provocar uma transformação no mundo, qual seria?
A igualdade de oportunidades. Talento existe em todo lugar — na favela, no interior, no asfalto, no campo. A chance não. O acesso não. Escola de qualidade, alimentação digna, tudo que é essencial em termos de serviços, infraestrutura e instalações para que uma criança possa sonhar e realizar. Potencial se desenvolve. É por isso que eu acredito tanto no trabalho social. Ele vai nessa raiz. Não é só ajudar hoje, é mudar o amanhã.
Quem é um filantropo que você admira e que acha que devemos entrevistar?
O Sr. Elie Horn. Ele tem uma trajetória de vida e generosidade impressionante. É alguém que acredita verdadeiramente no poder da educação, da dignidade e solidariedade para a transformação social. E ele faz isso com consistência, sem buscar holofote. Seria uma entrevista muito rica, ele tem muito a ensinar sobre o valor do compromisso, da fé e da ação. O Brasil precisa conhecer mais histórias como a dele.

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15/08/2025 @ 16:31
Não é atoa que és um fenômeno
As pessoas acham que talento , humildade e empatia , não faz diferença na educação e disciplina
Parabéns ?