Violência avança no mundo: como fortalecer a cultura da paz?

Direitos Humanos
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Com recorde de conflitos armados globais e aumento de diferentes formas de violência no Brasil, o pesquisador Dominic Barter defende a cultura da paz como caminho para transformar tensões sociais

Dominic Barter fala sobre como fortalecer a cultura da paz (Imagem: Divulgação)

Por Vitória Serrão.

O aumento da violência em diferentes partes do mundo tem ampliado debates sobre estratégias mais eficazes de enfrentamento, especialmente em contextos de transformações e tensões sociais. Em 2024, segundo o Programa de Dados sobre Conflitos de Uppsala (UCDP), o número de conflitos armados chegou ao maior nível desde o fim da Segunda Guerra Mundial, com cerca de 61 conflitos envolvendo Estados ou grupos armados, com crescimento da violência direcionada a civis.

No Brasil, diferentes indicadores também apontam avanço de várias formas de violência, como a escolar, de gênero, política, policial, doméstica e até contra animais, evidenciando fatores estruturais de desigualdade social e políticas públicas fragilizadas. Em 2025, a violência que atingiu recorde foi o feminicídio, com média de quatro mulheres mortas por dia, de acordo com dados do Senado Federal.

Pensando nesse cenário alarmante e no intuito de aumentar a conscientização do público, o Observatório do Terceiro Setor entrevista o pesquisador social e referência na Comunicação Não-Violenta e dos Círculos Restaurativos no Brasil, Dominic Barter.

Fatores que geram violência

Para o pesquisador, o aumento nos registros de violência, tanto no Brasil, quanto em outras partes do mundo, pode ser compreendido a partir de dois fatores distintos. O primeiro é a maior conscientização sobre o tema, o que amplia a disposição das pessoas em denunciar e registrar ocorrências. Algo positivo, pois demonstra que a sociedade está menos tolerante à violência e ao preconceito.

O segundo fator, segundo ele, é a tendência global de fortalecimento de uma cultura mais autoritária, marcada por restrições crescentes à liberdade daqueles em condições mínimas de bem-estar social. Enquanto milhões de pessoas ainda vivem sem acesso a direitos básicos, a revolta intensifica tensões sociais diante dessa iniquidade. Para Dominic, esses dois movimentos, acabam contribuindo para o crescimento dos números de violência.

A consciência acerca das desigualdades reforça a percepção de que condições sustentáveis de vida nem sempre são prioridade para governantes e grandes empresas. Nessa realidade, a resposta por parte de quem detém poder tende a caminhar em direção a posturas mais autoritárias, enquanto aumenta a pressão por condições de vida melhores. O resultado, segundo o especialista, é a intensificação da polarização no campo político.

“O grau de esperança que as pessoas sentem de que suas condições de vida vão melhorar, e de que a vida de seus filhos será consideravelmente melhor do que a delas, está começando a diminuir. Há uma consciência crescente de que a desigualdade é menos um fator natural e mais um resultado de políticas públicas e econômicas desenhadas para beneficiar poucos, às custas de muitos”, ressalta o pesquisador social, Dominic Barter.

Embora o aumento da violência esteja ligado a dinâmicas herdadas de um passado profundamente desigual, é importante distinguir o crescimento da violência do aumento do conflito político. Para Dominic Barter, a redução dos níveis de violência exige uma parceria entre conscientização social e visão política.

“A esperança que nos falta atualmente não se encontra na tentativa de evitar o conflito, mas sim em abraçá-lo com energia criativa, para que as diferenças de opinião possam produzir um movimento positivo para a frente. As relações, particularmente entre pessoas que discordam, podem ser fortalecidas quando há mais sinceridade e uma compreensão mais profunda de posições diferentes das nossas”, afirma Dominic Barter.

Combate à violência (Imagem: Agência Fiocruz de Notícias)

Semear a cultura da paz é respeitar as diferenças

Segundo o pesquisador, é importante compreender que o diálogo parte da disposição não apenas de ouvir, mas também de se permitir ser transformado pelo que se escuta. Algo que, segundo ele, não acontece em grande parte dos Estados-nação, que frequentemente rotulam e homogeneízam grupos vulnerabilizados, ignorando suas diversidades e reforçando processos de marginalização e divisão social.

Para Barter, a construção da paz só é possível quando se reconhece que existem pessoas e grupos vulnerabilizados vivendo sob condições sociais desiguais e que, muitas vezes são silenciados, oprimidos e restringidos de exercer plenamente sua autonomia, livre expressão e soberania para desenvolver suas próprias vidas. Nessa realidade, ele defende que a cultura não deve ser vista como um fenômeno singular, mas como algo plural, múltiplo e em constante transformação. 

“Entender a paz não é enxergá-la simplesmente como um estado estável de imutabilidade, onde conflitos, diferenças e mudanças estão ausentes. A paz deve ser compreendida em um sentido dinâmico, no qual o diálogo continua entre as diferenças, e o crescimento e desenvolvimento por meio das mudanças, assim como respostas criativas em um planeta em constante transformação, são reconhecidos como parte da realidade”, completa Dominic.

A Internet pode ser uma aliada?

Dominic também ressalta que a internet pode desempenhar um papel importante no combate à violência, pois aumenta a capacidade dos seres humanos de atender às suas necessidades em comum. No entanto, como muitas ferramentas, existe o perigo potencial de que os usuários dessa ferramenta comecem a servi-la, em vez de serem servidos por ela. 

Por possibilitar conexão mundial e comunicação instantânea, a internet pode permitir que inovações desenvolvidas ao nível comunitário sejam compartilhadas rapidamente e a grandes distâncias. Isso favorece que pessoas e grupos experimentem, adaptem e desenvolvam suas próprias versões de iniciativas capazes de fortalecer maneiras mais eficazes de convivência, baseadas em paz e harmonia.

“E essa é uma das razões pelas quais uma abordagem à educação e à sociedade fundamentada na não-violência é tão crucial. Nos últimos oito, nove, dez mil anos, a lógica da guerra influenciou a construção e a defesa das sociedades, até mesmo na menor unidade, que é a família. Agora, será necessária uma abordagem completamente nova se quisermos sobreviver a este momento de profunda mudança”, afirma Dominic.

Dominic Barter fala sobre como fortalecer a cultura da paz (Imagem: Guilherme Santos/Sul21 )

Como estabelecer a Cultura da Paz?

A cultura da paz defende a liberdade de expressão e a diversidade cultural. Sendo um conjunto de valores e comportamentos fundamentados no respeito à vida, na rejeição à violência e na promoção da democracia, da justiça e da solidariedade, através da resolução de conflitos por meio do diálogo.

O pesquisador social e referência na Comunicação Não-Violenta e dos Círculos Restaurativos no Brasil, Dominic Barter, reforça a importância do campo da educação nesse processo, pois nele é possível envolver desde crianças até idosos. Segundo ele, ao aplicar a cultura de paz na educação, o currículo passa a ser redefinido a partir da inteligência do aluno e do professor, bem como do contexto em que estão inseridos. Além disso, transforma-se a relação entre educador e aprendiz e amplia-se a abertura da escola para a comunidade ao seu redor.

“A não-violência oferece, na minha experiência, uma contribuição fundamental para uma abordagem ética, baseando suas respostas não na ideia de um quadro ideológico específico do que é certo e errado, mas sim na disposição de se encontrar e dialogar com cada grupo específico em seu próprio ambiente, com suas próprias referências, aprendendo o que é significativo para eles”, comenta o pesquisador.

Por fim, o entrevistado Dominic Barter reforça que um dos desafios da educação é manter-se relevante para comunidades cada vez mais diversificadas. Para ele, o elemento cultural é fundamental não apenas para orientar o que acontece dentro da sala de aula, mas também para projetar toda a estrutura da escola, adaptando-se à diversidade de formas de aprendizagem, e formas de ser de cada aluno e professor.