Dinheiro interesseiro e dinheiro que se interessa: a intencionalidade do poder financeiro nas relações de doação
Cultura de Doação
Por Joana Ribeiro Mortari, com Ana Biglione
Na sala de sua casa, envoltas pelas majestosas araucárias da Mantiqueira, Ana e eu conversávamos sobre as experiências que estamos vivendo com pessoas que de alguma forma apoiamos, seja doando tempo ou dinheiro. Em meio às turbulências finais de um ano particularmente desafiador para ambas, havíamos achado o assunto amoroso, aquele que nos conecta e acalenta a alma.
Comentava de um amigo em comum, atualmente vivendo o árduo desafio de alinhar propósito de vida com sustentabilidade econômica. Nos damos conta, mais uma vez, do pesado fardo da cultura paternalista meritocrática, que relaciona sucesso a dinheiro e coloca principalmente no homem a responsabilidade de prover para a família, tornando sua busca por propósito ou coerência, um verdadeiro desafio de vida. Se torna necessário saltar um abismo de crenças, medos e expectativas externas, para que um movimento de mudança profissional possa se concretizar. Ou seja, do ponto de vista dos homens disruptivos e de masculinos íntegros, o paternalismo também é um limitante.
O fato é que em meu último encontro com ele, o percebi diferente. Nós três somos próximos há algum tempo, fruto de um mestrado vivido em longos e desafiadores processos de imersão. Uma amizade que carrega em si cuidado, carinho e apoio mútuo, a despeito da distância física e diferença de idioma. Ainda assim, havia algo de novo, como se o gostoso caldo da nossa amizade estivesse mais denso.
Demorou para eu conseguir fazer sentido desta qualidade nova ao longo dos dias que passamos juntos, imersos em um outro processo de formação na África do Sul. Uma evolução natural da amizade? Um envelhecer amadurecido de ambos? Foi ao tentar dar forma ao que percebia sensorialmente que me lembrei de um elemento novo entre nós: em 2023 eu fiz uma doação para um projeto que ele desenvolve. Algo que o permitiu dar passos profissionais concretos no alinhamento entre propósito e sustentabilidade financeira.
Ao lembrar do fato, confessei à Ana que ao fazer a doação senti um certo medo. Dinheiro carrega o potencial intrínseco de mudar as relações sem que queiramos. Será que nossa amizade se transformaria? Será que a espontaneidade se perderia? Ana então lembrou de um encontro recente que facilitamos onde um participante-doador confessou que gostaria muito de estar mais próximo das organizações que apoia, mas tem receio de que o relacionamento com elas se desenrole a partir do fato de ele ser o doador, de ter dinheiro. Ou seja, ele estava interessado em aprofundar a relação mas, consciente do poder que inevitavelmente acompanha o dinheiro, sentia-se paralisado.
Me lembrei também que, quando entrei no setor social e comecei a conhecer técnicas de captação de recurso, me chamou a atenção o fato de que algumas eram mesmo direcionadas para o desenvolver de uma relação com o doador que o mantivesse em um lugar próximo o suficiente para continuar doando, mas longe o suficiente para não enxergar a organização por inteiro, e, por exemplo, ver suas falhas. Técnicas estas que têm consequências negativas à relação, e que dão margem a práticas nada íntegras, de nenhuma das partes.
Assim como o participante daquele encontro, muitas vezes, o doador não quer este relacionamento asséptico e distante, ao mesmo tempo em que não consegue identificar o caminho que o aproxime da organização sem que esta, também com medo e compelida a manter uma distância segura, se sinta obrigada a dizer sim para suas vontades de aproximação (de passar tempo lá, de conhecer pessoas, de viver a vida da organização), ficando, por exemplo, sem coragem de contar a ele que o acolher desta vontade as vezes tira energia, tempo e pessoas do atendimento à causa, entre outros desafios.
Fruto desse tipo de situação, muitas vezes, o conhecimento produzido pelo setor social e absorvido pelas organizações sociais e por doadores leva a um relacionamento pautado apenas pelo interesse financeiro – uma atitude um tanto interesseira. Adicionalmente, cria um medo, de ambos, no desenvolver de uma relação mais próxima e verdadeira.
Mas não foi o que aconteceu no caso da relação com este nosso amigo. Nos demos conta que o dinheiro da doação que fiz a ele teve o efeito contrário: nos aproxima. É bem verdade que uma relação verdadeira já existia ali, mas no senso comum, é justamente isso que se perderia. No frigir dos ovos, ou, talvez, no tempero da relação, se revela a intencionalidade subjacente ao poder do dinheiro. O dinheiro pode dar vida à uma relação interesseira ou à uma relação interessada.
Quando interesseira, a relação alinha o dinheiro ao controle, e os processos são construídos para que ele flua da maneira mais eficiente possível. As ferramentas são construídas para dar ao detentor do recurso a melhor sensação possível de resultado e segurança filantrópica. Aqui entram o culto à auto-imagem de benfeitor e à eficiência, e o medo da transparência (em contraponto às discussões acadêmicas sobre sua importância), entre outros. A relação é mantida na tal distância segura para ambos: um não recebe pedidos que não possa negar, o outro não abre a cozinha. Nenhum dos dois precisa se expor. Arm’s lenghé a expressão perfeita, em inglês.
Quando o dinheiro carrega uma relação interessada, a integridade é com a pessoa, organização ou causa (o fazer). A doação é sobre o desenvolvimento do outro e o que faz sentido para ele. A relação aproxima, conecta e acolhe. O caldo engrossa. Neste caso, a doação permite que algo no mundo se ilumine, brilhe. Nas palavras de bell hooks, “indivíduos que conseguem ser economicamente auto suficientes fazendo o que amam são abençoados. (…) a sua experiência serve de faixo de luz para todos nós, mostrando-nos como um modo de vida correto pode fortalecer o amor próprio, garantindo paz e contentamento nas vidas que levamos para além do trabalho.” (hooks; 2001)
Me preocupa a sensação de que, muitas vezes, acabamos por produzir um conhecimento técnico superficial, condutor de relações esvaziadas de conexão e propósito, como algumas das técnicas de captação que mais estão em voga. Sem nem tomar consciência da sua intencionalidade, estamos mecanizando os processos de doação, extraindo deles a energia vital que poderia realmente promover transformações mais profundas. Caminhamos, cada vez mais, na direção da construção de relações utilitaristas, distanciadas, interesseiras – em um setor que carrega em si a responsabilidade intrínseca de ajudar o outro e transformar realidades para melhor.
hooks, b. “All about love: new visions”, Ed. William Morrow, 2001. p. 64.
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*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.
Ana Biglione é facilitadora de processos e fundadora da Noetá e da Philó | Práticas Filantrópicas.
Joana Ribeiro Mortari é Co-Criadora e membro do Comitê Coordenador do Movimento por uma Cultura de Doação. Co-criadora da Philó | Práticas Filantrópicas e Membro do Comitê editorial da Proximate Press.
– Este texto foi publicado originalmente na Newsletter [re] pensando o doar.
