Donos da Percussão promove ancestralidade africana e transformação social em carnaval paulistano

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O Donos da Percussão utiliza a música para ampliar o acesso à formação cultural e artística em territórios periféricos, além de promover o contato com referências positivas ligadas à cultura afro-brasileira e à ancestralidade

Imagem: Divulgação (Donos da Percussão)

Por Lucas Neves

No bairro da Casa Verde, Zona Norte da cidade de São Paulo, um projeto idealizado por moradores oferece gratuitamente apresentações, oficinas, exposições itinerantes e materiais didáticos sobre a percussão. 

Criado em 2023, o projeto Donos da Percussão busca evidenciar o poder desses instrumentos de impacto, agitação, raspagem ou fricção, responsáveis por conduzir o ritmo de diferentes estilos musicais e que energizam as baterias carnavalescas.

Segundo os seus coordenadores, a iniciativa parte da compreensão de que grande parte dos instrumentos percussivos existentes possuem origens e raízes africanas, por isso, o projeto trabalha também difundindo a cultura afrodescendente. Começando com o seu próprio nome, que sustenta a afirmação de que o povo negro é, historicamente, o verdadeiro dono da percussão.

A jornada do Donos da Percussão

Em conversa com o Observatório, Cleber Rimazza Dalberto, que faz parte da equipe de coordenadores do projeto, destaca que as primeiras ações aconteceram após a seleção no Edital de Apoio à Música da cidade de São Paulo. A partir dos recursos adquiridos, o Donos da Percussão realizou a primeira oficina na quadra da Escola de Samba Unidos do Peruche, onde foi formada a Orquestra Percussiva da iniciativa, composta por alunos da própria oficina. 

Na mesma etapa, foi criada a Exposição Itinerante dedicada a contar a história dos instrumentos de impacto que integram o acervo, além da produção de materiais didáticos digitais voltados à temática da percussão. Consequentemente, a exposição e a orquestra passaram a circular por centros culturais e escolas públicas em regiões periféricas, entre eles, o Centro de Culturas Negras.

Conexão com o Carnaval

O Donos da Percussão possui uma conexão especial com o carnaval. Durante o feriado de 2024, o projeto esteve presente nas ruas da cidade de São Paulo com seu desfile próprio no bairro da Casa Verde e participação especial no Bloco da Abolição, no Bexiga. Também participou com sua batucada no Cortejo Afro do Coletivo Kizomba pra Preto, na Virada Cultural, e na Expo Internacional do Dia da Consciência Negra.

Mas não parou por aí. Ainda neste ano, a orquestra do Donos da Percussão se apresentou no Museu da Língua Portuguesa, no Saguão da Luz, como parte da programação cultural da exposição “Línguas Africanas que fazem o Brasil”.

Em 2025, o projeto continuou sua saga carnavalesca na capital paulista, realizando novo desfile no bairro da Casa Verde, repetindo a participação do Bloco da Abolição. Outro momento importante para a iniciativa foi a apresentação no Museu do Futebol, durante o Festival Ocupa Pacaembu.

No entanto, o ano de 2025 representou um outro marco fundamental para o fortalecimento institucional do Donos da Percussão. A iniciativa foi contemplada pelo Edital de Fomento Cult SP PROAC, na categoria Fortalecimento das Culturas Populares e Povos Tradicionais. 

Com o apoio estadual, o projeto de percussão realizou uma segunda oficina e ampliou, ainda mais, a circulação da exposição e da orquestra percussiva em novos espaços, como a Fábrica de Cultura da Brasilândia e a ETEC Uirapuru, além de outros centros culturais e escolas públicas situadas em territórios periféricos e de alta vulnerabilidade social.

A partir desse fomento via edital, os organizadores contam que também foi possível executar a primeira tiragem impressa do ebook do projeto, dedicado à história de instrumentos de percussão tradicionais e contemporâneos. Ainda em 2025, o Donos da Percussão foi reconhecido e certificado como Ponto de Cultura pelo Ministério da Cultura, por meio da Secretaria da Cidadania e Diversidade Cultural.

O impacto social do Donos da Percussão

Os porta-vozes da iniciativa comentam que, mesmo com pouco mais de dois anos de trajetória, os resultados alcançados revelam o impacto social da iniciativa. Segundo Cleber, o projeto tem utilizado a percussão para  ampliar o acesso à formação cultural e artística em territórios periféricos e promover o contato com referências positivas ligadas à cultura afro-brasileira e à ancestralidade.

As aulas de percussão reúnem pessoas de diferentes idades, entre 7 e 70 anos ou mais, de diversas origens raciais e trajetórias de vida. Nesse sentido, Cleber destaca que o ambiente favorece a troca de experiências, a construção de vínculos de amizade e de relações profissionais. 

“Há alunos que chegaram sem saber sequer como segurar um instrumento e hoje atuam em escolas de samba e blocos carnavalescos”, salienta o integrante da equipe de coordenação. 

Ele também lembra dos participantes vindos de outros estados e países que encontraram no projeto um espaço de acolhimento, convivência e ampliação de seus laços sociais. Já alguns utilizaram a prática da percussão como apoio para o cuidado com a saúde mental.

Por fim, Cleber cita outro impacto importante na vida dos alunos, “a oportunidade de viver a experiência e sentir a adrenalina de se apresentar ao vivo em espaços públicos reconhecidos, algo que, por não serem músicos profissionais, dificilmente seria possível”.

“A exposição também proporciona uma experiência interativa, na qual o público pode manusear os instrumentos e conhecer a história de cada um, destacando a importância das tradições africanas dentro da música e da cultura brasileira”.

Para Cleber, essa vivência desperta interesse e curiosidade sobre a percussão, além de transformar o ato de tocar em uma atividade divertida, já que os instrumentos de impacto, mesmo para pessoas sem nenhum conhecimento musical, permitem produzir sons ritmados, diferentemente de muitos outros instrumentos.

Donos da Percussão em 2026

Em 2026, o projeto iniciará uma nova ação, a partir do segundo bimestre, por meio do edital VAI, Valorização de Iniciativas Culturais. Além da apresentação da orquestra percussiva para o público geral, haverá uma ação voltada às crianças, a qual utilizará a exposição como base para contar as histórias dos instrumentos de percussão de forma lúdica e divertida, com demonstrações de cada instrumento e contação de histórias realizadas por pedagoga especializada na área. 

Cleber comenta que também serão realizados workshops para adolescentes, adultos e idosos, sobre livros com temas ligados à percussão, escritos por autores negros e com temática antirracista, igualmente conduzidos por pedagoga especializada. Esse projeto circulará por CEUs localizados em territórios de extrema periferia, em áreas com grande vulnerabilidade social das regiões norte, sul, leste e oeste da cidade de São Paulo.

Para finalizar, Cleber deixa o convite aos fãs de percussão e, principalmente, do carnaval. “O projeto participa mais uma vez do Carnaval de Rua da cidade de São Paulo com o ‘Donos da Percussão na Rua’, que acontece na segunda-feira, dia 16 de fevereiro, a partir das 13h, no bairro da Casa Verde, levando as mais tradicionais músicas de Carnaval em uma festa para toda a família”. conclui.

Para conhecer mais sobre o projeto, acesse www.donosdapercussao.com.br e acompanhe nas redes sociais pelo perfil @donosdapercussao.