Educação em Direitos Humanos: uma necessidade do passado, do presente e do futuro
Educação

Por Diogo Cavazotti Aires
Criança é morta por adolescente, após este se irritar com a presença dela em casa. Professora vai para o hospital após ser agredida por aluno após confusão por nota digitada errada. Aluno agride professora em Santos, e colega filma o ataque. ONU afirma que gravidez na adolescência é fábrica de fazer pobres na América Latina. Pesquisa mostra omissão de instituições na inclusão de pessoas com deficiência. Aluno se suicida na Universidade de São Paulo e há denúncias de racismo e negligência. Jovem de 16 anos se suicida na Colômbia após sofrer discriminação por parte da própria direção da escola.
Estas frases foram retiradas de notícias de jornais. A pequena, muito pequena amostra da necessidade de um novo tipo de educação pondera como tem sido feito pouco, muito pouco, na área.
Se a educação tem por objetivo ajudar a compreender o verdadeiro sentido e o valor essencial da vida, ela deve primeiramente chamar a atenção para a vida como a vida de um alguém, ou seja, ela deve despertar uma preocupação para com o mundo. Desse modo, a educação deveria ser orientada não exatamente para a aquisição de valores, mas para a fundação e preservação de um mundo como condição inerente da vida humana (Masschelein, 2017, p. 14).
O cenário ideal é de que este artigo não fosse necessário e de que não se falasse em Educação em Direitos Humanos, tampouco existisse um programa mundial para abordar o tema. Entretanto, vivemos em realidades concretas onde o propósito dos direitos humanos na educação são urgentes, necessários e fazem parte de uma questão de sobrevivência, em muitos casos, como pudemos ver anteriormente. Ferreira (2017, p. 53) vai além:
Como permanecer atribuindo significado ao discurso pedagógico de formação para o exercício da cidadania, numa sociedade que dá indícios de não mais suportar o conceito de cidadão? Por que investir em uma educação pautada na interação e na troca de experiências, se o sujeito político contemporâneo já foi expropriado de suas experiências, e incapaz de comunicá-las? Como educar para o espaço público se este paulatinamente se tornou o lugar efêmero, de um mundo provisório, onde não há perspectiva de responsabilização pelo mundo?
Também é possível apostar na capacitação integral do profissional de educação:
Mas as pessoas – sobretudo os alunos em formação – não reagem apenas a técnicas, métodos e procedimentos a que são submetidos. Reagem também e fundamentalmente à singularidade da pessoa que os ensina, à sua visão de mundo; reagem, portanto, não somente àquilo que um professor faz, mas a quem ele é. Daí que o processo formativo de um professor não se esgote no desenvolvimento de suas competências profissionais, mas inclua necessariamente a formação de um sujeito (Silva, 2017, p. 226).
Sujeito este que é peça fundamental na formação de um cidadão ou cidadã que enfoca os direitos humanos no chão da sala de aula, nos exercícios, nos exemplos dados, na resolução de conflitos, na inclusão de temas atuais nos debates na escola, no colégio. Isso é fundamental para tentar rebater uma afirmativa de Bodziak Junior (2017, p. 59): “no âmbito da sociedade, as pessoas se agrupam e discriminam umas às outras a partir de suas afinidades”.
Não se pode educar sem ao mesmo tempo ensinar; uma educação sem aprendizagem é vazia e, portanto, degenera, com muita facilidade, em retórica moral e emocional. É muito fácil, porém, ensinar sem educar, e pode-se aprender durante o dia todo sem por isso ser educado (Deina, 2017, p. 181).
O processo educacional passa proporcionalmente por uma etapa crucial da história: a da existência. O mundo humano se encontra em contínua transformação, seja pela renovação que a ele traz o nascimento dos novos, seja porque se desgasta no processo vital dos homens que o habitam (Bodziak Junior, 2017, p. 77).
bell hooks (2021, p. 42) já exemplificava a importância de um novo modo de ensinar e, portanto, pensar, na obra Ensinando Comunidade:
Professores progressistas não precisavam doutrinar estudantes nem ensinar que deveriam se opor à dominação. Alunos e alunas chegavam a essa conclusão por meio da própria capacidade de pensar criticamente e de acessar o mundo em que viviam. Ao discutir assuntos como imperialismo, raça, gênero, classe e sexualidade, educadores progressistas aumentavam a consciência de todos sobre a importância dessas questões.
Anos antes, a própria autora salientou que, em Ensinando a Transgredir:
A educação como prática da liberdade é um jeito de ensinar que qualquer um pode aprender. Esse processo de aprendizado é mais fácil para aqueles professores que também creem que sua vocação tem um aspecto sagrado; que creem que nosso trabalho não é o de simplesmente partilhar informação, mas sim o de participar do crescimento intelectual e espiritual dos nossos alunos. Ensinar de um jeito que respeite e proteja as almas de nossos alunos é essencial para criar as condições necessárias para que o aprendizado possa começar do modo mais profundo e mais íntimo (2013, p. 25).
O cenário ideal para a Educação em Direitos Humanos seria que toda a educação, toda, fosse baseada neste conceito. Sim, aulas específicas também são importantes, mas todo o conteúdo educacional deveria estar embasado no conceito aqui apresentado. E precisamos que educadores e gestores atuem com este pensamento.
Fontes
HOOKS, B. Ensinando a Transgredir. São Paulo: Martins Fontes, 2013.
HOOKS, bell. Ensinando a Transgredir. A Educação como prática da liberdade. 2 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2017.
BODZIAK JUNIOR, P. E. O impacto do social na educação: Little Rock e o despertar para a responsabilidade em Hannah Arendt. In: CARVALHO, J. S. F.; CUSTÓDIO, C., O. Hannah Arendt. A Crise na Educação e o Mundo Moderno. São Paulo: Intermeios; Fapesp, 2017. p. 57-70.
DEINA, W., J. O pensamento e a responsabilidade do educador: reflexões a partir da filosofia de Hannah Arendt. In: CARVALHO, J. S. F.; CUSTÓDIO, C., O. Hannah Arendt. A Crise na Educação e o Mundo Moderno. São Paulo: Intermeios; Fapesp, 2017. p. 167-184.
FERREIRA, A. L. O deserto como metáfora para pensar a relação entre educação e totalitarismo. In: CARVALHO, J. S. F.; CUSTÓDIO, C., O. Hannah Arendt. A Crise na Educação e o Mundo Moderno. São Paulo: Intermeios; Fapesp, 2017. p. 41-55.
MASSCHELEIN, J. Mundo e Vida ou Educação e a Questão do Sentido (da Vida). In: CARVALHO, J. S. F.; CUSTÓDIO, C., O. Hannah Arendt. A Crise na Educação e o Mundo Moderno. São Paulo: Intermeios; Fapesp, 2017. p. 13-27.
SILVA, K., C., B. A ruptura com a tradição e a consequente ascensão do discurso do especialista. In: CARVALHO, J. S. F.; CUSTÓDIO, C., O. Hannah Arendt. A Crise na Educação e o Mundo Moderno. São Paulo: Intermeios; Fapesp, 2017. p. 221-232.
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