Em livro, travesti se torna símbolo do resgate histórico LGBTQIA+

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A travesti Cintura Fina marcou Belo Horizonte na década de 1950. Hoje, uma biografia resgata sua memória e a do movimento LGBTQIA+ brasileiro

Travesti se tornou símbolo do resgate histórico LGBTQIA+ com livro
Foto: Arquivo pessoal (esq.) | Divulgação (dir.)

Por: Mariana Lima

Na década de 1950, a chegada de uma cearense de 20 anos de idade a Belo Horizonte marcou a história da capital mineira. Cintura Fina, como era conhecida na época, foi a primeira travesti de grande visibilidade na região.

Essa foi a constatação de Luiz Morando, especialista em memória LGBTQIA+ e doutor em literatura brasileira pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O assunto é tratado no livro ‘Enverga, mas não quebra: Cintura Fina em Belo Horizonte’ (O Sexo da Palavra), que traz a biografia de Cintura Fina.

O trabalho de pesquisa foi inspirado por um acervo de jornais e revistas que começou a ser consolidado em 1989. Os recortes de publicações de décadas anteriores mostravam a sociedade da época e relatos de pessoas que conviveram com Cintura Fina.

Além de abordar a trajetória de Cintura Fina, o autor argumenta que a recuperação da memória travesti seja essencial para criar referências para as novas gerações e incluir nos registros da sociedade homens e mulheres marginalizados.

A travesti já serviu de inspiração para personagem de novela. Em 1998, a novela Hilda Furacão, baseada no romance homônimo de Roberto Drummond, trouxe a personagem Cintura Fina, interpretada por Matheus Nachtergaele, resultado da fama que acompanhou ao longo de décadas a travesti.

Luiz Morando, no entanto, quer humanizar a existência de Cintura Fina, que ficou conhecida pela destreza com o uso da navalha. Figura emblemática por quase 30 anos, Cintura Fina foi profissional do sexo. A profissão continua a ser realidade para muitas mulheres trans e travestis no país atualmente.

Cintura Fina também teve passagens por delegacias e respondeu a ações judiciais por pequenos delitos, como roubo e furto.

Morando reforça que, no caso de Cintura Fina, a agressividade que virou marca registrada era o recurso disponível para se defender: ela gostava de ser respeitada e de ver os outros respeitarem a sua identidade feminina.

Mas Cintura Fina não foi a única travesti a ter sua história presa aos estereótipos e relegada ao esquecimento.

Em Salvador, durante a década de 1970, Floripes foi a primeira travesti assumida a ocupar as ruas da capital baiana. Era figura conhecida entre os empobrecidos, sofria com o preconceito de pessoas das classes média e alta da sociedade.

Floripes, assim como Cintura Fina, não aceitava desaforos. Se alguém tentasse desrespeitá-la de alguma maneira, ela logo partia para a briga. Na virada para a década seguinte, Floripes foi brutalmente assassinada e há poucas informações sobre a sua história.

O pouco que se sabe sobre ela é que trabalhou como cozinheira em restaurantes populares, lavadora e engomadora de roupas antes de iniciar sua transição de gênero. Não há informações sobre a cidade de origem de Floripes, nem sobre a sua família.

Para Morando, a trajetória de ambas reflete um sistema de higienização estabelecido durante a construção da história. Ele reforça ser fundamental avançar no resgate da história local em diversas regiões e capitais do Brasil para demonstrar as variáveis e dimensões dentro das vivências LGBTIQA+ que são plurais.

No caso de Cintura Fina, o uso do pronome feminino para se referir a ela é uma homenagem póstuma feita pelo autor da biografia, já que havia sido tratada como um homem homossexual para a imprensa da época.

Fonte: ECOA | UOL