Enfrentando a Verdade Inconveniente da Filantropia: negação, raiva, paralisação, ação.

Cultura de Doação
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Imagem: Adobe Stock.

Por Joana Ribeiro Mortari, com Ana Biglione

Quando estudamos o campo filantrópico tem um momento inevitável em que nos encontramos com a verdade inconveniente da filantropia, ou para os Junguianos, sua sombra. Sombras são aquelas partes que não queremos ver em nós mesmos, mas que compõem quem somos. Em processos de desenvolvimento da consciência, trabalhamos para reconhecer, entender e nos mover através delas, sem deixar que ela tome conta de nós sem que a percebamos. Uma sombra da filantropia, ou sua verdade inconveniente, é que a doação, dependendo de como é feita, sustenta paradigmas de pensamento, estruturas sociais e, portanto, desigualdades. Acontece que ninguém entra no setor social para manter desigualdades sociais. Esta Ideia, em si, é contra intuitiva. É por isso que nosso encontro com a verdade inconveniente é como o encontro com a morte: o que havíamos entendido por filantropia morre e algo novo tem que nascer no lugar. O luto, como muitas de nós sabemos, tem fases.

Me lembrei disso ao participar do primeiro encontro do Cohort do Global Engagement Lab 2024. Na sessão em pequenos grupos a conversa rapidamente foi para nossas desavenças com a filantropia é uma das participantes, na fase da negação, disse que já tinha ouvido outras pessoas falarem sobre a possibilidade de a filantropia ter efeitos negativos indesejados, mas que achou um exagero.”Não é bem assim”, disse ela.

A outra pessoa, que trouxe o assunto originalmente, estava em outra fase, vou chamar de paralisação. Ela acontece quando a pessoa dá de cara com a sombra da filantropia de maneira a não conseguir mais negá-la e, assustada com o tamanho do efeito de tal realização nas suas escolhas de vida, é invadida por um enorme desânimo. Na fase da paralisação os caminhos adiante sem aquele ente querido, ou a imagem idealizada de filantropia, não estão claros.

De  maneira mais coletiva, os últimos quatro anos têm sido marcantes neste processo. Uma vez que a sombra se torna visível, é um caminho sem volta, um divisor de águas. As imagens aparecem em desenhos de transição para a filantropia, como o proposto pelo Justice Funders, em livros escritos por autores dispostos a apontar para as sombras, como Letting Go (2021), Decolonizing Wealth (2021) e Post Capitalist Philanthropy (2022), nos inúmeros artigos escritos no Brasil. Otto Scharmer publicou um artigo no final de 2023 onde identifica quatro práticas filantrópicas que classifica de maneira evolutiva, sendo a primeira a doação assistencial e a segunda a filantropia estratégica, ou seja, o autor identifica mais dois passos evolutivos.

Os que insistirem em continuar apegados a  processos de concentração de poder e riqueza ou impondo vontades e conhecimento, continuarão “dominados” pela sua sombra, provavelmente achando que o problema está nos outros. Os que conseguirem olhar para a verdade inconveniente terão como começar a desenvolver processos integrados e alinhados, de fato, à transformação social. Globalmente e a partir da nova imagem sobre o campo, caminhos alternativos – que reconhecem e enfrentam a verdade inconveniente – começam a surgir.

Um exemplo do norte global é um programa para ensinar doadores a trabalhar com comunidades rurais e povos nativos construindo linguagem, processos e práticas em conjunto e que façam sentido para quem recebe recursos ao invés de exigir que estes se adaptem a sistemas que foram construídos exclusivamente por doadores (e consultores) e, inevitavelmente, carregam em si uma lógica de poder e conhecimento dominante.

No Brasil o Programa Saberes, da Rede Comuá, busca emancipar o conhecimento de comunidades brasileiras na solução de problemas sociais, decolonizando o campo filantrópico de conhecimento e demonstrando um compreensão profunda sobre o encontro com a sombra da filantropia. Conversei com dos bolsistas do Saberes, Cléber Rodrigues, sobre sua sistematização do processo do Fundo Regenerativo Brumadinho (a ser publicado em breve pela Proximate) e tive a oportunidade conhecer mais sobre o processo participativo com o qual trabalham e onde colocam em prática a doação baseada na confiança.

E você, que exemplos lembra quando pensa em processos que estão caminhando nesta direção?

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*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.

Sobre as autoras:

Ana Biglione é facilitadora de processos e fundadora da Noetá e da Philó | Práticas Filantrópicas.

Joana Ribeiro Mortari é Co-Criadora e membro do Comitê Coordenador do Movimento por uma Cultura de Doação. Co-criadora da Philó | Práticas Filantrópicas e Membro do Comitê editorial da Proximate Press.

– Este texto foi publicado originalmente na Newsletter [re] pensando o doar.