ESG: Projetos de D&I elevam compromisso e responsabilidade corporativa

Por Ana Letícia Lucca
Embora esteja mais popular agora, o termo ESG (environmental, social and governance) surgiu há mais de 10 anos, em um documento publicado pelo Banco Mundial em conjunto com o Pacto Global da Organização das Nações Unidas (ONU) e algumas instituições financeiras de diversos países, chamado Who Cares Wins – “Quem se importa, ganha”, em tradução livre. No início, a ideia era provocar os bancos sobre como implementar iniciativas ESG, um conjunto e indicador de práticas sociais, ambientais e de governança corporativa voltado ao mercado financeiro e de capitais para atingir investimentos sustentáveis.
Dessa forma, as empresas financeiras assumiriam o compromisso de considerar não só a lucratividade de suas próprias decisões, mas também o impacto social e ambiental delas. Ao mesmo tempo, garantiriam a transparência desses dados a partir de práticas de governança, o que, como contrapartida, daria mais poder de decisão aos consumidores: cada um conseguiria decidir qual marca escolheria acompanhar de acordo com as causas e propósitos delas (ou não acompanhar, por conta da ausência de intenção semelhante).
Aos poucos, essa nova mentalidade também atingiu as empresas fora do setor financeiro. Por exemplo, de acordo com a pesquisa Retratos da Sociedade Brasileira – Hábitos Sustentáveis e Consumo Consciente, metade da população escolhe consumir de marcas que adotam práticas mais sustentáveis. Além disso, 38% das pessoas não se importam em pagar mais caro por um produto, desde que tenha havido menor sofrimento animal na produção do item. Dentro do setor de Tecnologia, área em que atuo, isso não é diferente: hoje, as empresas se preocupam em implementar redes de computadores e servidores garantindo eficiência energética, assim como a otimização dos códigos e a segurança das informações. A redução da emissão de gases do efeito estufa e a destinação correta dos equipamentos eletrônicos obsoletos também está no radar das empresas de TI.
Paralelamente a isso, as organizações também têm olhado para práticas de inclusão digital e diversidade, principalmente pensando nos aspectos sociais do ESG, que compreendem, além do apoio à D&I, a adesão a causas e projetos sociais de impacto e uma atuação direta com a comunidade, assim como a valorização dos direitos trabalhistas e da saúde e segurança no ambiente de trabalho. Considero a adoção dessas medidas excelente, pois políticas inclusivas ajudam a melhorar o desempenho social no geral e, aos poucos, transformam a área de Tecnologia. Essas mudanças, na verdade, ainda contribuem para a justiça social ao proporcionar oportunidades para grupos historicamente minorizados, como mulheres, a população LGBTQIA+ e as pessoas negras.
Quando entramos em contato com os números, isso fica ainda mais nítido: em TI, 68% são homens e 32% mulheres; 58,3% das pessoas são brancas e 37% pretas, de acordo com dados da pesquisa #QUEMCODABR. Além disso, de acordo com esse mesmo estudo, em mais de 32% das empresas não há nenhuma pessoa negra nas equipes de trabalho em Tecnologia e, em mais de 68% dos casos, as pessoas negras representam no máximo 10% das pessoas nas equipes. Para superar esses números, atuar a partir de políticas inclusivas, promovendo a igualdade de oportunidades, contribui para a inovação das empresas: a diversidade de perspectivas e experiências garante o surgimento de novas ideias e perspectivas que antes não eram vistas ou consideradas.
Aliás, eu percebo essa ação como acontecimentos em cadeia: ambientes inclusivos atraem mais talentos diversos. Por sua vez, essa abertura pode ajudar no aumento da satisfação e lealdade dos funcionários, assim como do bem-estar deles dentro da organização. E, quando a empresa se torna sólida quanto à inclusão, fica mais fácil para a diversidade chegar em conselhos de administração e na alta liderança, o que fortalece a governança corporativa. A partir disso, é notório que empresas diversas conseguem alcançar mais: elas atraem os investidores e compreendem melhor as necessidades de diferentes mercados e consumidores. Por isso, são vistas de forma mais positiva pelo público e pelos consumidores, que preferem marcas que refletem seus valores.
Acredito que a relação entre governança corporativa e práticas de diversidade e inclusão é fundamental para o sucesso das empresas que buscam cumprir metas ESG. Uma governança forte e inclusiva não apenas melhora o desempenho social e de sustentabilidade, mas também promove uma cultura organizacional saudável, atraindo talentos e investidores, e garantindo conformidade com regulamentos e padrões éticos. Ao integrar a diversidade e inclusão em sua governança, as empresas estão melhor posicionadas para enfrentar os desafios e aproveitar as oportunidades no cenário empresarial atual.
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*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.
