Esporte e Educação: partes indissociáveis do mesmo compromisso com o futuro
Educação

Por Wenceslau Madeira
Todo início de ano traz um misto de expectativa e inquietação. A principal delas, para mim, é perceber como a educação segue ocupando um espaço frágil no centro das decisões estruturais do país. Há avanços pontuais, experiências consistentes e profissionais comprometidos, mas ainda convivemos com a sensação de que falta um projeto contínuo, capaz de atravessar governos e ciclos políticos.
A dor está na repetição: discursos renovados, mas problemas antigos. Promessas que não se sustentam no tempo e políticas que não chegam, de forma consistente, aos territórios onde a educação é mais urgente. A luz, por outro lado, segue acesa nas práticas que resistem, nos educadores que permanecem e nas iniciativas que conseguem produzir transformação real, mesmo em cenários adversos.
O Dia Mundial da Educação, que é celebrado em janeiro, reforça a necessidade de olhar para além das datas simbólicas e encarar o debate com mais profundidade. Ainda tratamos a educação de forma compartimentada, restrita à sala de aula e a métricas tradicionais, ignorando dimensões fundamentais da formação humana. É nesse ponto que o esporte precisa ser recolocado no centro do debate educacional, não como atividade complementar, mas como elemento estruturante de uma educação integral.
A experiência acumulada no terceiro setor mostra que educação esportiva é educação em sua plenitude. O esporte ensina disciplina, convivência, respeito, escuta, cooperação e permanência na escola. Em territórios vulnerabilizados, ele se apresenta como uma linguagem pedagógica potente, capaz de criar vínculos, gerar pertencimento e oferecer caminhos de desenvolvimento socioemocional. A separação artificial entre “educação formal” e “projetos sociais” empobrece políticas públicas e desconsidera a realidade de milhões de crianças e adolescentes.
Essa lógica fragmentada também aparece quando se discute legado esportivo. Estruturas físicas não são, por si, legado educacional. Quadras, ginásios e centros esportivos só cumprem essa função quando há gestão, intencionalidade pedagógica e presença contínua.
Em Minas Gerais, a atuação da De Peito Aberto evidenciou como equipamentos deixados pela Copa do Mundo podem se tornar ativos educativos e comunitários quando são apropriados pelos territórios. Quando o poder público se ausenta, o terceiro setor frequentemente assume essa ativação, arcando com responsabilidades que deveriam ser compartilhadas.
O contexto exige um olhar estratégico para os próximos anos. As escolhas feitas agora, na formulação de políticas, programas e prioridades, impactarão a sociedade que queremos lá na frente. O risco de reduzir a educação a um discurso genérico segue presente, especialmente quando ela não é tratada como política de Estado. Sem continuidade, planejamento e integração entre áreas, a educação permanece vulnerável a rupturas que comprometem seu impacto.
No horizonte de 2026, a De Peito Aberto reafirma seu compromisso com a educação como eixo transversal de suas ações. O esporte seguirá sendo trabalhado como ferramenta pedagógica, de formação cidadã e de desenvolvimento humano.
A expectativa é ampliar parcerias, qualificar práticas e fortalecer a incidência de políticas públicas. O que nos move é justamente a construção cotidiana, feita de escolhas responsáveis, presença e permanência nos territórios e convicção de que educar é formar pessoas por inteiro.
Mais do que executar projetos, o desafio é contribuir para um debate público maduro, que enxergue educação e esporte como partes indissociáveis de um mesmo compromisso com o futuro.
A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.
