Indígenas brasileiros lutaram e fizeram 20 mil soldados nazistas se renderem

Compartilhar

Entre os cerca de 25 mil soldados brasileiros que combateram as tropas nazistas de Adolf Hitler durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), estavam dezenas de indígenas, de etnias como terena, cadiueu, kinikinau e guarani

Imagem ilustrativa. Tropas da Wehrmacht se entregando em agosto de 1944./ Fonte da imagem: WikiCommons

O Brasil declarou guerra a Hitler em 1942, depois que 35 navios brasileiros foram atacados na costa brasileira e 32 afundaram, deixando centenas de mortos. Os soldados embarcaram para a Itália em 1944.

O que muitos não sabem é que diversos indígenas integravam o Nono Batalhão de Engenharia, que chegou a capturar uma bandeira nazista quando rendeu a 148ª Infantaria do Exército alemão em abril de 1945. Cerca de 20 mil soldados alemães se renderam aos brasileiros.

Entre os cerca de 25 mil de soldados brasileiros que combateram as tropas nazistas de Adolf Hitler durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), estavam dezenas de indígenas, de etnias como terena, cadiueu, kinikinau e guarani.

A história dos indígenas brasileiros que ajudaram os Aliados a derrotar as potências do Eixo ainda é pouco conhecida, e os heróis brasileiros ficaram fora dos livros de história que contam a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial.

Os indígenas integraram a Força Expedicionária Brasileira (FEB), espalhados em diferentes divisões como infantaria, responsável por atacar e defender, e engenharia, com funções como desmontar armadilhas, desarmar minas e até abrir estradas.

Na aldeia de Ipegue, em Aquidauana, é possível encontrar o túmulo de Irineu Mamede, indígena terena que foi soldado do Primeiro Regimento de Infantaria, o mesmo que atuou na tomada de Monte Castello, um morro íngreme de 977 metros. Naquele inverno de 1945, coberto de neve, o domínio do local era fundamental para barrar as tropas de Hitler na Itália.

Dedicado a preservar a história dos indígenas da FEB, o jornalista Geraldo Ferreira localizou o jazigo de Mamede. O lugar é decorado com o símbolo da FEB: uma cobra fumando. Mamede morreu em 1996.

Os pracinhas brasileiros eram tratados como heróis pelos italianos libertados do domínio nazista. Em combate, porém, usavam a língua indígena. Vucapanavo era o grito de guerra dos terenas, revelou Jorge em entrevista a Ferreira. O termo significa algo como “em frente!”.

Discriminação e traumas

Apesar de seu heroísmo, os índigenas brasileiros foram discriminados no Brasil e voltaram traumatizados com a guerra.

Otacílio Teixeira foi duplamente discriminado, segundo o jornalista. Isto porque era filho de um negro e uma índia. Morto em 2019, ele é um dos inúmeros veteranos de guerra que ficaram com sequelas psicológicas e traumas.

O soldado José Quevedo, morto em 2016, também tinha más memórias dos combates. “Depois do retorno, levou mais de 20 anos para pegar uma espingarda para caçar porco do mato”, relata Ferreira. Quevedo também não gostava de fogos de artifício, por causa do barulho que lembrava disparos.

Os veteranos, além do trauma da guerra, testemunharam o ocaso dos anos que seguiram a extinção da FEB, quando eram vistos com desconfiança pelo próprio governo. Enfrentaram também a discriminação pela condição indígena ou negra, lamenta o pesquisador.

Fonte: Folha de São Paulo