Instituto Entre o Céu e a Favela transforma a vida de jovens periféricos no RJ

Direitos Humanos
Compartilhar

Nós acreditamos que esse protagonismo e autonomia, que a cultura gera nas crianças, impulsiona elas para chegarem em outros lugares”, comenta Cintia Sant’Anna, fundadora do Instituto Entre o Céu e a Favela

O Observatório entrevistou Cintia Sant’Anna, fundadora do Instituto Entre o Céu e a Favela (Imagem: Divulgação)

*Por Lucas Neves

O Instituto Entre o Céu e a Favela promove cultura, educação e geração de oportunidades para juventudes periféricas. A partir do nome da organização, é fácil entender o seu propósito: mostrar aos moradores das comunidades que é possível chegar onde quiserem.

“A mensagem está nesse lugar dos sonhos, da possibilidade de tudo que pode acontecer entre o céu e a favela”, diz Cintia Sant’Anna, a fundadora da organização. Criado por ela em 2012, no Morro da Providência (RJ), o instituto nasceu como um informativo comunitário, transformando-se em um agente na luta contra a desigualdade social.

Em entrevista ao Observatório do Terceiro Setor, Cintia conta que o surgimento do instituto Entre o Céu e a Favela ocorre a partir da sua vivência como educadora em um curso de produção cultural. “Entramos em um projeto chamado Agência de Redes, que ensinava jovens a escrever projetos. Na época, fazíamos isso em grupo, e o grupo decidiu ter essa ideia de fazer um informativo, porque na Providência, até hoje, não temos nenhum meio de comunicação oficial”, comenta.

Essa iniciativa de comunicação originou o Projeto Entre o Céu e a Favela, unindo a paixão e experiência de Cintia pelo teatro com o seu desejo de transformar vidas a partir de ferramentas como a cultura e a comunicação.

No entanto, apesar da necessidade cultural, ela destaca que a mudança efetiva da vida nas favelas exige atuação em diversos eixos: como educação, saúde e geração de oportunidades. “Nós defendemos que são necessárias muitas ações para impactar os moradores da favela, e muitas delas são políticas públicas. Não é uma ONG que vai resolver”.

Nesse contexto de ausências, o que começou como um projeto cultural, expandiu-se para uma atuação voltada às necessidades básicas da população local. “Porque não tem saneamento básico, as pessoas têm questões com alimentação, não têm trabalho…”, destaca Cintia.

“Então, hoje, 96% do que tem no ‘Entre o Céu e a Favela’ tem a ver com isso, com essa demanda que as pessoas foram trazendo, principalmente as atividades, que hoje não são só teatro”.

A sede do Instituto funciona como um polo criativo no alto da comunidade, com estrutura para aulas, oficinas e criações colaborativas. O espaço abriga estúdio, biblioteca, laboratório de moda e salas multiuso.

Atualmente, além das oficinas socioculturais e esportivas, o instituto realiza cursos de qualificação profissional para jovens e adultos da região portuária. Nós acreditamos que esse protagonismo e autonomia, que a cultura gera nas crianças, impulsiona elas para chegarem em outros lugares”.

Segundo o Instituto Entre o Céu e a Favela, em 13 anos de atuação, suas ações já impactaram mais de 50 mil pessoas e consolidaram parcerias com marcas como YouTube, O Boticário e Oi Futuro. Além disso, o trabalho desenvolvido pela organização ganhou reconhecimento nacional e internacional, com prêmios como o Faz Diferença, da Globo, e participação no programa Mulheres de Impacto, da ONU Mulheres Brasil. 

A seguir, confira a entrevista completa com Cintia Sant’Anna!

Cintia Sant’Anna (Imagem: Divulgação)

Queria que começasse contando a trajetória do Instituto. Como foi o processo de transformar um informativo comunitário em uma organização social? Quais dores e lacunas sociais, existentes no Morro da Providência, motivaram a criação do instituto?

Na verdade, eu já dava aula de teatro. Entramos em um projeto chamado Agência de Redes, que ensinava jovens a escrever projetos. Na época, fazíamos isso em grupo, e o grupo decidiu ter essa ideia de fazer um informativo, porque na Providência, até hoje, não temos nenhum meio de comunicação oficial: não tem rádio comunitária, não tem jornal. Hoje, por conta das redes sociais, existem grupos — antes Facebook, agora WhatsApp.

O que aconteceu é que, depois de cinco meses, estávamos noticiando coisas que tinham a ver com a retirada de casas e tal, e eu fiquei sozinha, né? Na inauguração, os jovens que faziam comigo já tinham saído. Ficou só uma menina, mas que também não conseguia ser tão atuante.

Como eu já dava aula de teatro, comecei a transformar isso em algo mais artístico. Então, a gente fazia leitura dramatizada, fizemos um cine-clube, e eu fui investindo nessa parte artística, trazendo as pessoas que eu conhecia para dar oficinas aqui: de perna de pau, de circo, o que eu achasse. Eu trazia a galera para cá.

Obviamente, isso vai tomando forma por conta das necessidades de um território que vive sem política pública, né? Porque aí não tem saneamento básico, as pessoas têm questões com alimentação, não têm trabalho. Então, hoje, 96% do que tem no “Entre o Céu e a Favela” tem a ver com isso, com essa demanda que as pessoas foram trazendo, principalmente as atividades, que hoje não são só teatro. É por aí.

Vocês defendem o poder da transformação a partir de atividades socioculturais. Poderia contar como o Instituto Entre o Céu e a Favela acredita que essas ações de cultura e educação impactam a vida dos moradores da favela?

Na verdade, nós defendemos que são necessárias muitas ações para impactar os moradores da favela, e muitas delas são políticas públicas. Não é uma ONG que vai resolver.

A experiência do teatro se dá a partir de mim: eu tive contato com o teatro, e isso mudou a minha vida. Mas muda a minha vida no sentido de como eu me vejo no mundo, do meu olhar e dos acessos que eu tive a partir do teatro. Das pessoas que chegaram e me ajudaram a partir disso.

Nós acreditamos que esse protagonismo, essa autonomia que a cultura gera nas crianças, impulsiona elas para chegarem em outros lugares. Mas, para que elas cheguem em outros lugares, nós precisamos que as universidades as recebam, precisamos de saúde, precisamos de escolas boas. É uma comunidade para criar uma criança.

E, obviamente, precisamos que a política pública funcione. Precisamos de segurança pública que não mate os jovens de favela, antes de alcançarem os sonhos deles. Então, a nossa parte de cultura e educação, estamos fazendo o que é possível dentro do contexto de uma ONG de favela, mas é só uma pontinha do que precisa ser feito de fato, como um todo.

Você poderia compartilhar uma história de uma criança ou jovem atendida pelo instituto que te evidenciou o poder de transformação do projeto?

Eu acho que não tem alguém específico assim. A gente tem exemplos de jovens que vêm aqui com a gente e que, depois, foram trabalhar em empresas e foram efetivados. Jovens de favela, jovens pretos.

Temos a experiência de um menino do grupo de teatro que ele não sorria quando começou a fazer atividade com a gente. Hoje, ele sorri, faz terapia e lida com outros problemas, mas todos eles em cena são muito potentes.

E aí, tem as micro-histórias, micro-revoluções, porque uma criança, quando ela vai deixando a violência um pouco de lado para fazer as oficinas, isso é uma transformação. Quando ela chega no horário, quando ela é responsável, quando ela lembra, isso é uma micro-revolução. Elas vão aprendendo novas habilidades, isso é uma micro-revolução.

Então, tem mulheres que abriram negócios. Tem uma… Qual o nome dela? A do empreendedorismo, qual o nome dela? A do Coffee Break? A Jéssica, que fez curso de empreendedorismo com a gente, abriu uma empresa de buffet e está aí fazendo o trabalho dela, né? Temos experiências de pessoas que fizeram curso com a gente de liderança e estão trabalhando com a gente até hoje, que é a Letícia. É isso, temos essas micro-revoluções, né?

Qual foi o principal aprendizado que você adquiriu em todos esses anos atuando em projetos sociais pelo Instituto Entre o Céu e a Favela?

Eu acho que todos, porque a gente aprende aqui todo dia. As relações trazem isso. Trabalhar num lugar onde as pessoas são abandonadas de muitas formas faz você aprender muita coisa sobre a humanidade, sobre a sua humanidade, sobre a humanidade do outro. Eu aprendi muito sobre mim e eu me salvo no trabalho, né? Quando você faz uma coisa por muito tempo, você fica especialista nisso, então você entende que esse discurso que é bonito, que as pessoas falam que a favela é potência, isso tudo, você vê a realidade disso. É que não consegue também ultrapassar isso por conta da falta de política pública, por ser um lugar que não recebe saneamento básico, que é tratado como um lugar inferior, que tem a questão da violência, que tem os muros invisíveis.

Não sei se tem um principal, mas… Eu acho que a escuta, que era uma coisa que eu já exercia muito no teatro. Eu fiquei oito anos num grupo de teatro de rua, e a gente já exercia isso muito. Você fazer teatro na rua, e os seus muitos companheiros de cena muitas vezes serem os moradores de rua, você trabalha muito a sua escuta, a sua empatia, a sua capacidade de olhar o outro na sua humanidade, né? Sem os estereótipos sociais que a gente tende a carregar. Então, eu aprendi… Aprendi, não, mas eu posso dizer que eu sofistiquei a minha escuta, né? Eu me aperfeiçoei muito nisso, assim, e aí, automaticamente, se você consegue fazer isso com a escuta, a sua comunicação também melhora muito. Então, acho que é isso.

Para finalizar, gostaria que comentasse como surgiu a ideia do nome do instituto e qual mensagem vocês esperam passar a partir dele.

Na época em que estávamos fazendo o informativo, procurando o nome e tal, duas coisas aconteceram. Primeiro, eu li um artigo que uma amiga me mandou, e o título era “Entre o Céu e a Favela”. O tema desse artigo era sobre a expulsão das religiões de matriz africana das favelas e a ocupação pelas religiões evangélicas.

Nesse dia em que eu deveria levar o nome, enquanto eu estava a caminho da Associação de Moradores, onde acontecia o curso Agência de Rede, estava tendo um campeonato de pipa na Vila Olímpica. Eu fiquei olhando a pipa e pensei no nível de tecnologia que ela representa, que é apenas uma linha e um garoto colocando força e lidando com o vento. Ela alcança uma altura muito grande para o nível de tecnologia que depende de pouco recurso.

Então, essa imagem de poder chegar onde quiser e de tudo poder acontecer “Entre o Céu e a Favela” me veio muito forte. Eu levei a ideia, e o pessoal gostou do nome. Hoje, olhamos para ele e pensamos que é uma saga, que é um filme, que é várias coisas. Mas a mensagem está nesse lugar dos sonhos, da possibilidade de tudo que pode acontecer entre o céu e a favela. E o lugar da pipa, que pode alcançar muitos lugares, mesmo sendo um material que as pessoas poderiam considerar simples, para algo que foi tão alto assim.