Justiça social se faz onde a vida acontece: no território
Direitos Humanos
Por Wenceslau Madeira
O Dia Mundial da Justiça Social, celebrado nesta sexta-feira, 20 de fevereiro, nos provoca a olhar para além das intenções e perguntar onde o Brasil de fato se encontra. Ampliamos o acesso à escola nas últimas décadas, mas seguimos distantes de garantir permanência, qualidade e equidade. A justiça social, por aqui, ainda esbarra em um dado estrutural: o CEP continua determinando trajetórias.
A desigualdade educacional brasileira é territorial. Não se distribui apenas por renda, mas por bairro, por município, por infraestrutura disponível ou ausente. Quando falamos em justiça social sem encarar essa realidade, permanecemos na retórica.
É nesse contexto que enxergo o poder transformador do esporte. Quando tratado como atividade extracurricular, ele perde potência. Quando integrado à política educacional, torna-se organizador de trajetórias.
Em territórios vulnerabilizados, a educação esportiva extrapola o campo do entretenimento e se torna ferramenta concreta de justiça social. Ela constrói repertório socioemocional, amplia redes de proteção e oferece perspectivas onde, muitas vezes, o Estado chega de forma intermitente.
Mas justiça social não se constrói em ciclos curtos. Projetos interrompidos geram frustração, não transformação. O Brasil convive com políticas episódicas, dependentes de agendas políticas e orçamentárias instáveis. Educação e esporte, por sua vez, exigem planejamento de médio e longo prazo, gestão qualificada e continuidade. Esse é um dos gargalos centrais do país.
Minha experiência na De Peito Aberto me ensinou que ativar estruturas existentes, como equipamentos esportivos públicos muitas vezes subutilizados, é mais eficaz do que criar iniciativas desconectadas da realidade local. Afinal, justiça social se faz onde a vida acontece: no território. É ali que políticas precisam ganhar forma, com infraestrutura, gestão e presença constante.
O terceiro setor não substitui o Estado, nem resolve sozinho a injustiça estrutural. Seu papel é operar pontes, testar modelos, estimular políticas públicas e demonstrar caminhos possíveis. Quando falamos em educação e esporte, essa mediação é decisiva. É onde conseguimos articular poder público, comunidade e iniciativa privada em torno de um objetivo comum.
Como já abordei aqui anteriormente, a agenda ESG deixou de ser tendência e passou a ser parâmetro de mercado. O pilar social, muitas vezes tratado de forma superficial, ganha concretude quando conectado a projetos estruturados, com metodologia, indicadores e impacto mensurável.
A De Peito Aberto tem atuado exatamente nesse ponto de interseção, unindo transformação social em territórios vulneráveis a marcas que assumem o compromisso de gerar valor compartilhado.
Empresas que desejam atuar com propósito encontram na educação e no esporte campos estratégicos de investimento social privado. Estamos falando de responsabilidade corporativa alinhada a resultados tangíveis, inclusão e desenvolvimento humano. Se bem estruturadas, essas parcerias fortalecem comunidades e consolidam marcas como agentes efetivos de transformação.
O horizonte de 2026 impõe uma pergunta anterior ao debate orçamentário: como estruturar políticas consistentes antes de discutir apenas quanto investir? Acredito que justiça social não se mede por volume de recursos anunciados, mas por trajetórias efetivamente transformadas.
Justiça social, no fim das contas, é garantir que oportunidades não sejam exceção, mas parte da estrutura. Quando educação e esporte deixam de ser discurso e passam a ocupar o centro da estratégia nacional, o país começa a falar com seriedade e cuidado sobre o futuro.
*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.
