Mulheres no pós-pandemia: disparidade de gênero e aumento das desigualdades
Dia Internacional das Mulheres: em ranking global de combate às disparidades de gênero, Brasil fica mal posicionado; na edição de 2022 o país piorou sua colocação, ocupando o 94º lugar entre 146 nações

Por Suevelin dos Santos
A pandemia de covid-19 continua a ter impacto nos direitos das mulheres em todo o mundo, é o que indica o relatório Global Gender Gap Report 2021, do Fórum Econômico Mundial, organização sem fins lucrativos que realiza encontros anuais em Davos (Suíça) reunindo empresários e líderes de todo o mundo. Segundo o levantamento, o tempo necessário para acabar com a disparidade global de gênero aumentou em uma geração, de 99,5 anos para 135,6 anos.
Desde 2006, o índice considera as lacunas baseadas em gênero nas seguintes dimensões: participação econômica e oportunidade, realização educacional, saúde e sobrevivência e empoderamento político. O Brasil tem caído no ranking global. Na edição de 2022, ganhou o 94º lugar entre 146 nações, e vem piorando sua colocação desde 2020, quando ocupava o 92º lugar.
O relatório chama atenção para o impacto da covid-19 e afirma que “a perda de emprego por conta da pandemia foi significativamente pior para as mulheres do que para os homens, ao contrário de outras recessões na história recente“.
Segundo a Pnad Contínua, do IBGE, a taxa de desemprego entre as mulheres atingiu um pico de 18,5% no primeiro trimestre de 2021, período em que o desemprego entre os homens foi de 12,2%. A diferença de 6,3 pontos percentuais entre os dois índices é a maior da série, que começa em 2012.
Novo indicador desenvolvido pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) aponta que 15% das mulheres em idade produtiva em todo o mundo gostariam de trabalhar, mas não têm emprego, em comparação com 10,5% dos homens.
O ritmo das reformas em prol da igualdade de gênero é o mais baixo em 2020 anos, aponta o relatório Mulheres, Empresas e o Direito, do Banco Mundial que avalia leis e regulamentos de 190 países em oito áreas: mobilidade, trabalho, remuneração, casamento, parentalidade, empreendedorismo, ativos e pensões.
Os dados, atualizados até 1º de outubro de 2022, constituem referências objetivas e mensuráveis para o progresso global rumo à igualdade legal de gênero. Atualmente, apenas 14 países têm leis que dão às mulheres os mesmos direitos que os homens. Todos são países de alta renda.
Serão necessárias mais 1.549 reformas para alcançar um nível substancial de igualdade jurídica de gênero em todas as áreas medidas pelo estudo, o que significa que levaríamos pelo menos 50 anos, em média, para atingir essa meta.
Pesquisa da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) afirma que a pandemia afetou mulheres e meninas desproporcionalmente nas Américas. O relatório também alerta que a incorporação de uma abordagem de gênero na resposta à pandemia tem sido insuficiente. O gênero não aparece nas análises dos efeitos diretos e indiretos da pandemia, dificultando o reconhecimento e a compreensão das diferentes consequências que a COVID-19 teve em homens e mulheres.
Violência contra a mulher no Brasil
Na questão da violência, a pesquisa “Visível e Invisível: a Vitimização de Mulheres no Brasil”, do Fórum Mundial de Segurança Pública mostra um crescimento expressivo de todos os tipos de violência, sendo a casa o espaço de maior violência para as mulheres (53,8%).
“A pandemia significou o confinamento no ambiente doméstico, as rotas de fuga da violência doméstica – que seriam os serviços públicos – foram dificultados, inclusive as não institucionais. A mulher ficou ainda mais à mercê da violência”, explica a socióloga e cientista política, Jacqueline Pitanguy.
Segundo o documento, mulheres negras apresentaram níveis de vitimização muito mais elevados do que de mulheres brancas nos casos de violência física severa. Diversos fatores estão relacionados ao crescimento da violência contra mulher, entre eles a falta de financiamento de políticas de enfrentamento, a dificuldade de acesso aos serviços de acolhimento e a ação de movimentos ultraconservadores.
Aumento das desigualdades
Alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas é a meta da ODS 5, da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU), que prevê 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e 169 metas que devem ser alcançadas nos próximos anos.
Conforme indica o Relatório Luz de 2022, a disparidade de gênero está diretamente ligada ao aumento das desigualdades, por isso, o documento estabelece metas para acabar com a discriminação, eliminar a violência e práticas nocivas, valorizar o trabalho de assistência e doméstico, participação na política, economia e vida pública, etc. Infelizmente, nenhuma das metas foram atingidas até o momento.
