Racismo e Multiculturalismo no Brasil

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Imagem ilustrativa/ Foto: Adobe Stock

Por Cristiane Jatene

Todo brasileiro, em algum momento da vida, vai se deparar com a questão: “Existe racismo no Brasil?”.

Essa pergunta se refere especificamente aos negros. A pergunta é: “Existe racismo contra os negros, os pretos, os pardos? Contra os descendentes de escravizados, trazidos da África?”

Sim, existe.

No ultimo dia 20 de novembro, dia da “Consciência Negra”, o Brasil acordou com o assassinato de um negro nas dependências de uma empresa multinacional, cujos seguranças, parece, não quiseram imobilizar a pessoa e chamar a Polícia, caso necessário. Eles mataram a chutes e socos.

Na “live” do dia 16 de novembro, da edição do nosso “Conversa Cidadã”, feita no Instagram, o tema foi “Consciência Negra pra que?” Lá, disse que todas as etnias que construíram o Brasil devem ser honradas. Expliquei a razão de termos que fazer reparações históricas. Disse que nossa sociedade naturaliza assassinato de crianças negras e naturaliza humanos procurando comida no lixo. Deveríamos parar! E buscar a cura.

O racismo faz sociedade tensa, desconfiada, uma atmosfera pesada, indigna! Os opressores empregam energia para oprimir, os oprimidos tem que reagir, os justos tem que resistir ao avanço do passado sobre o futuro, querendo nos atrasar.

Quem pode relaxar, viver em paz?

Há muitos anos, academicamente, não se fala mais em “raças”. Existe a “raça humana” e diversas etnias que a compõem, mas quando vamos falar de preconceito e discriminações a palavra é racismo.

O racismo não se deu somente na escravização, que desumanizou humanos, os transformando em objetos, em mercadorias, com preço de compra e venda. O racismo se deu na “Abolição da escravatura”.

Para entendermos porque antes de discriminar, violar, assassinar, precisamos desumanizar, recomendo o livro de Achille Mbembe, “Necropolítica: biopoder, soberania, estado de exceção, política da morte”, editado no Brasil pela “N-1 Edições”. Mbembe é pesquisador e professor de História e Ciências Políticas, em Joanesburgo.

A “Abolição da escravatura” não foi feita com inserção social. Foi “abandono à própria sorte” de um contingente populacional imenso, que foi jogado na sociedade, sem estudo, sem profissão, sem moradia, sem vestimentas, sem comida.

A tragédia brasileira pode ser contata por muitos começos. Mas, certamente, o capítulo da “Abolição” é um começo fundamental.

Veja a perversão social: institui-se liberdade aos negros sem nenhuma condição de sobrevivência e passa-se a acusá-los de viverem nas ruas, de roubarem comida, de serem vagabundos.

Existe racismo contra outras etnias da raça humana, no Brasil. Os indígenas, por exemplo, são dizimados! Tema para outro texto.

Como disse, o antropólogo e líder indígena Ailton Krenak, numa entrevista ao “Canal Arte 1”, “os mundos estão em guerra”. Ailton é autor do indispensável livro “Idéias para adiar o fim do mundo”, que imprime duas palestras ministradas em Portugal, antes da pandemia da covid19, que parecem ter sido proferidas depois. O livro é editado no Brasil pela “Companhia das Letras”.

As estatísticas brasileiras, mostram que a população preta, descendente do enorme contingente de escravizados é a maior e que ainda é naturalizado, a indecente e vergonhosa quantidade de assassinatos de jovens negros, de crianças negras.

Ainda não me esqueci de Ágatha, uma menina de oito anos, assassinada por bala perdida. Posso ouvir, agora, o avô da menina, emocionado, contando dos projetos de vida da neta. Que espécie de sociedade naturaliza o assassinato de uma criança de oito anos?

O que não é naturalizado no Brasil é pretos ocuparem postos de destaque, fora das Artes e do Esporte. É notícia um negro jornalista passar a apresentar um telejornal ou ser juiz de Direito.

Casos isolados de sucesso de negros em postos de destaque ou poder são aceitos, admirados e até usados para que digamos que não somos racistas.

Afinal, o que o Brasil não suporta? O Brasil não suporta “Justiça Social”. Igualdade entre os povos e etnias que compõem nossa nação.

Essa multiplicidade de culturas é nossa maior riqueza. Por ela, o Brasil é amado mundo afora.

Por que digo que o Brasil, o país que exalta filantropia, não suporta “Justiça Social”? Porque o Brasil não gosta de negros e pobres nos aeroportos, em shoppings, cargos públicos de destaque e/ou comando, na medicina, nas universidades. Todos vimos e sabemos o que resultou abrir esses espaços para todos os brasileiros. A reação foi violenta.

Estudei em dois colégios particulares. Antes, na pré-escola, passei por mais dois. Num dos colégios da pré-escola havia uma colega negra. Depois, no ensino médio, havia um único aluno negro.

Fiz duas faculdades. Na segunda, havia duas pardas e um negro.

Fiz três pós-graduações. Havia um negro em uma e um pardo em outra. Na terceira, a formação em fenomenologia-existencial, que é contínua e não há turmas estanques, em treze anos, nunca vi um negro e, que eu saiba, há duas pessoas descendente de árabe. Eu e mais uma. E um dos fundadores é judeu.

Como descendente de sírio e libaneses sempre fui minoria. A maioria é descendente de europeus. Sentia diferença raras vezes, porque a comida da minha casa era diferente das demais, porque o meu cabelo era preto e não marrom, porque a história dos meus ascendentes nunca foi estudada, nem na faculdade de História, que cursei inteira.

É absurdo, como historiadora, o que sei do meu passado, majoritariamente, é “Historia do Brasil”. Portanto, sei mais da “História do Ocidente”, da Europa e até mais da “Historia dos Escravizados”, do que da “História do Oriente Médio”, dos meus antepassados. Parte da minha identidade é velada, simplesmente, por que vivo no Ocidente. Isso é um tipo de violência. Um das violências das muitas que o mundo ocidental fez e faz contra o mundo oriental.

De alguns anos para cá, tenho conhecido a produção cinematográfica, como aponta esse artigo que escrevi e foi publicado no Instituto de Cultura Árabe: https://icarabe.org/node/3912.

Sei que uma das maravilhas do mundo, a “Gruta de Jeita”, dá origem ao meu sobrenome, Jatene. Posso um dia, ao menos, visitar a Gruta, por exemplo.

E os africanos escravizados, que tiveram seus sobrenomes trocados?

Recomendo o documentário sobre a cantora e ativista Nina Simone (Netflix),dirigido por sua filha. Para além de mostrar o extraordinário talento artístico e o casamento violento e conturbado, mostra o ativismo e a necessidade que ela teve de viver por um período na África para se sentir igual.

Qual a diferença entre ser descendente de pessoas do Oriente Médio, que vieram livremente para o Brasil e ser descendente de escravizados, num Ocidente, que exalta europeus e seus descendentes? Nunca alguém atravessou a rua porque eu estava na calçada. Nunca a família de nenhum amigo ou namorado me discriminou. Nasci sócia de um clube de origem alemã, que demorou para aceitar negros associados, onde nunca fui discriminada.

A diferença? Eu passava (e passo) por branca! No entanto, tenho orgulho da minha origem e da educação humanitária que tive. Os valores humanitários podem ser aprendidos, por todos. Crianças e adultos. Ensinemos! Aprendamos!

Namorei por alguns anos um homem, cuja família faz parte das famílias chamadas, em São Paulo, de “quatrocentonas”. Meu pai, brincando, disse no início, ciente do preconceito: “Saiba que para eles você será uma turquinha”.

Muitos sírio-libaneses, no Brasil, vieram fugidos do “Império Turco-Otomano” e no passaporte vinha carimbado “Procedência: Império Turco-Otomano”. É uma grande ofensa ser chamado pelo nome do povo que queria dizimar seu povo, especialmente os cristãos, que eram os perseguidos. A ignorância brasileira produz esse tipo de coisa.

Sendo descendente de povos muito antigos, com forte influência em todas as culturas, sempre dou um sorrisinho quando algum europeu ou brasileiro fala em antiguidade ou tradição. Como se diz no genial romance “O mundo pós-aniversário”, de Lionel Shriver, editado no Brasil, pela Intrínseca”: A coisa mais difícil é impressionar os ignorantes”.

E o que dizer da “antiguidade” da África?

Alguns europeus e alguns de seus descendentes, não enxergam os outros povos e as barbáries que cometem contra esses povos. A História é contada pelos vencedores e, mais recentemente, por quem financia as mídias. E quem vê um lado da História, apenas, é ignorante.

Como sempre digo: A História não é passado, é fluxo contínuo de fatos e escolhas contextualizadas.

Todos nós fazemos história a cada ato, a cada voto, a cada fala, a cada vez que nos calamos.

O Brasil faz história ao assassinar um negro, sem direito a julgamento e defesa, no dia que instituiu para ser o dia da “Consciência Negra”.

Tenhamos consciência do genocídio e paremos!

Podemos mudar o significado do sido, de acordo com o que construiremos para vir-a-ser. O trabalho que deveria ter sido feito no Brasil, na época da Abolição, ficou por fazer. Façamos! Por todos nós.

Alguma vez fui discriminada pela família do meu ex-namorado? Nunca. Por que? As famílias tinham a mesma religião. Uma tia materna tinha sido professora de alguns deles. Eu estudei na mesma escola da mãe e das irmãs dele. Lembro de um dia, na mesa do almoço, no qual cantamos o hino da nossa escola. Vocês imaginam, na mesma época, uma menina negra ali, tendo estudado na naquela escola, uma escola de origem francesa?

Teço minhas homenagens à Benê, preta, assistente da irmã Maria de Lourdes, diretora da escola. Minha infância não existe sem a educação amorosa de ambas. Todos os dias, Benê nos recebia com um sorriso e um abraço. Adorava o momento de chegada na escola, era feito com muita troca de afeto.

Há um mundo branco no Brasil. Ou você entra ou você será discriminado por esse mundo que não o deixou entrar.

O conhecimento ajuda, é um bom “passaporte”. Como ter conhecimento sem dinheiro no país que persegue “Políticas Públicas” de inserção social, através de golpes de Estado?

O dinheiro ajuda, outro bom passaporte. Como ter dinheiro no país no qual o Estado financia os bancos e há “grita” contra financiamento da Cultura e das Ciências?

Não existem casos isolados e responsabilidades unicamente individuais nas injustiças sociais e na falta de percepção e conscientização do problema. O trabalho é de todos. É da nação.

Nas “Constelações familiares” é necessário honrar todos os membros da família extensa. A equivalência para nós, terráqueos, seria honrarmos todas as etnias.

Nunca havia sentindo um impacto negativo tão forte, como senti em 2019, na volta de Portugal, onde também sou psicóloga, um país que valoriza a Educação, as Artes e a Cultura, no qual sempre sou bem recebida nos ambientes nos quais trabalho (basicamente, escolas e universidades) e, pela primeira vez, voltei para o país que decidiu retroceder: quebrou a constitucionalidade, feriu a república, a democracia e instaurou o poder “do boi, da bala e da Bíblia”.

A Bíblia anticristã, que persegue, discrimina e mata. Nesse país, eu e muitos outros pesquisadores, professores, artistas e cidadãos passamos a ser considerados, por alguns, como “comunistas” por defender valores humanitários e civilizatórios.

Pela primeira vez, em 2019, não tive vontade de voltar para o meu país, pela primeira vez entendi e senti repulsa de pessoas que desejam manter o “apartheid” social, desde que elas estejam confortáveis. Que me querem bem, desde que eu também queira manter o “apartheid”, o que não posso, não quero e não vou fazer.

Não compactuarei com a destruição de um país em desenvolvimento, para a implantação de um país atrasado, autoritário, corrupto, injusto e fundamentalista religioso.

O que mais me perguntaram em Portugal, nas três universidades que eu estive, em 2019, foi: “Por que vocês não fizeram nada para impedir essa eleição?”. E sabe qual a injustiça dessa pergunta? Nós fizemos.

Quem pode contra o poder “do boi, da bala e da Bíblia”?

Pode uma nação unida em torno do antirracismo, do antimachismo, do antifascismo, da valorização das Artes, da Ciência, da Educação e da Cultura. Que se assume contemporânea e multicultural, que abraça e respeita o multiculturalismo aqui e no mundo.

Sejamos uma sociedade que pare de matar Benê e seus familiares!

Sobre a autora:

Cristiane Jatene é psicóloga e historiadora, clinica em São Paulo no seu consultório particular, onde atende indivíduos, casais e famílias. Com sua obra ‘Baralho de Palavras’, criada diariamente por um ano, quando escreveu uma palavra por dia, ministra as ‘Oficinas Autobiográficas’ para grupos no Brasil e em Portugal. Atualmente, tem feito os atendimentos clínicos online, bem como a ‘Roda de Conversa Virtual Luso-Brasileira’, criada durante a pandemia.

Artigo publicado originalmente no Medium e cedido para a campanha Observatório em Movimento.


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