Organizando a Filantropia: oportunidades perdidas

Cultura de Doação
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Imagem: Adobe Stock.

Por Joana Ribeiro Mortari

O vilarejo de Jouvence fica a 130 kilometros a leste de Montreal, no Canadá. Enquanto a primavera em Vancouver já está a todo vapor, com folhas verde-claras e tulipas irradiando a monocromática palheta de tons do inverno, em Jouvance ela estava tímida. A neve que cobre Quebec durante o inverno já estava cedendo, mas o que se via por entre as placas brancas era uma natureza ainda dormente, sem cores. Era como se eu tivesse viajado para o passado. O grupo de pessoas que conheci forma a quinta edição do Global Engagement Lab, um processo de aprendizagem e formação de uma comunidade global de financiadores progressistas, uma palavra pouco usada no Brasil mas que se assemelha à ideia de práticas filantrópicas que promovem justiça social usada pelos membros da Rede Comuá.

Ao longo do encontro um conceito ressoou em mim, o de organização da filantropia. Já escrevi diversas vezes que a forma como praticamos filantropia pode acarretar em avanços ou sustentar as dinâmicas de poder que se expressam na vida econômica, e muitos textos sobre o assunto foram publicados nos últimos anos. A organização da filantropia exige uma atenção simultânea para o que estamos fazendo (a causa que defendemos) e o como estamos fazendo (o que na Philó chamamos a prática filantrópica). Ou seja, independentemente da causa que defendemos, o processo filantrópico sempre está presente e é ele que vai determinar as relações entre quem doa e quem recebe recursos. Na educação, por exemplo, uma causa queridinha dos doadores brasileiros, existem ao menos dois processos: o educacional (que educação estão promovendo? É uma educação que emancipa ou que determina a posição de cada um na sociedade?) e o filantrópico (como os recursos estão sendo doados? Estão promovendo a emancipação ideológica da localidade onde o trabalho é feito?)

A opção por determinado processo filantrópico organiza a filantropia. Isto acontece no dia a dia de quem trabalha no setor, como nos processos internos de uma organização doadora, ou em níveis de complexidades maiores, como no trabalho interdisciplinar e intersetorial de elaboração das diretrizes para a promoção de uma cultura de doação do Movimento por uma Cultura de Doação, que se propõe a organizar os investimentos a serem feitos no fomento do campo filantrópico brasileiro.

Mas para além do conceito em si, o que me realmente me chamou a atenção nas histórias contadas durante o encontro foram as oportunidades de organização da filantropia perdidas. Fiquei intrigada, e quem acompanha minhas escritas sabe que sou movida por incômodos e que a escrita é a forma como eu elaboro eles em mim e para o mundo, ou para quem tiver interesse. Eis que aqui estamos, novamente.

Ao final do encontro um dos facilitadores fez uma fala de acolhimento e disse entender ser difícil ser um organizador da filantropia, ou agitador, como aprendi esta semana, para além de tudo que a pessoa já faz. Opa, incomodo crescendo. Meu problema com esta fala é que se não formos agitadores ou se ser agitador não for uma parte integrante do que fazemos, dificilmente chegaremos a um lugar diferente uma vez que um sistema opera de maneira a se manter estável. Se trabalhamos no campo filantrópico porque acreditamos que um futuro mais justo é possível e queremos ser parte dele, enfrentar lugares indigestos é essencial e tem que ser visto como parte do trabalho.

Vou dar um exemplo. Em um dos exercícios que fizemos em Jouvence, meu grupo assumiu o lugar de CEO de uma fundação americana que tinha doado 8 milhões de dólares para organizações de base comunitária na Palestina no ano anterior, para além dos cinco por cento obrigatórios. Neste ano o conselho estava relutante. A alta da inflação e as repercussões de se posicionarem durante o conflito entre Palestina e Israel, além de receito passarem a ser alvo de ataques da extrema direita americana – algo que tem acontecido constantemente nos Estados Unidos (e no Brasil), geravam insegurança. O CEO tinha que desenvolver uma estratégia para convencer o conselho a fazer novamente a doação.

A conversa foi boa e rapidamente o grupo desenhou um mapa de valores e uma estratégia para convencer o conselho a repassar os recursos. No entanto, nada foi discutido sobre o papel da fundação, declaradamente progressista, de enfrentar a conversa sobre o conservacionismo do endowment (medo da inflação), o potencial papel da fundação de se posicionar politicamente em relação à violação de direitos humanos mesmo se tivesse que se defender de uma ação judicial, ou mesmo a oportunidade que uma ação judicial pode gerar em midia e posicionamento, ainda que cara.

Gatos escaldados em negociações com conselhos, a maioria das pessoas do grupo trazia consigo o medo de entrar na conversa sobre processos filantrópicos e perder o recurso que teria que ir para a atividade fim, demonstrando a realidade do desafio que é ser um organizador da filantropia. Do mesmo jeito que o conselho tem como um valor intrínseco o de defender o endowment contra a inflação e o medo de perder dinheiro, o CEO tem o de repassar recursos para as causas. Quando cada uma das partes faz o seu trabalho, nada se move na filantropia. A estrutura se mantém intacta. Quem fica de fora é a oportunidade para conversas e mudanças de processos filantrópicos.

Mudar processos filantrópicos é um desafio real e apenas acontece quando os valores e os medos que nos fazem tomar (ou não) decisões passam a fazer parte da conversa. Por outro lado, cada conversa que desafia um processo que mantém as estruturas que sustentam o funcionamento do mundo é uma conversa que vale a pena ser tida, por menor que possa parecer ou por mais embrenhada em outras prioridades que possa estar.

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*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.

Sobre a autora: Joana Ribeiro Mortari é Co-Criadora e membro do Comitê Coordenador do Movimento por uma Cultura de Doação. Co-criadora da Philó | Práticas Filantrópicas e Membro do Comitê editorial da Proximate Press.

– Este texto foi publicado originalmente na Newsletter [re] pensando o doar.