Por que “Empresa não é ONG” virou slogan?
Cultura Organizacional
Por Thiago Crucciti
Recentemente, uma frase frequentemente usada por empresários e gestores ganhou ainda mais destaque nas redes sociais: “Empresa não é ONG. Quem não entrega, sai“. Embora a provocação não seja nova, sua recente viralização merece uma reflexão profunda e urgente.
Durante muito tempo, eu mesmo reproduzi frases semelhantes, carregadas de preconceitos e simplificações sobre o terceiro setor. Depois de dez anos liderando a Visão Mundial Brasil, percebi claramente o quanto estava equivocado. Sim, é verdade que ONGs não são empresas no sentido clássico: não distribuem lucros entre acionistas, nem têm finalidade puramente econômica. Mas, ao contrário do que muitos imaginam, ONGs têm metas rigorosas, indicadores claros e precisam entregar resultados concretos.
Aqui, surge uma pergunta provocadora para você, gestor do terceiro setor: será que estamos realmente prontos para assumir que resultado, performance e eficiência fazem parte integral do nosso propósito social? Ou ainda existe, inconscientemente, uma resistência em aceitar que entregar resultados claros é tão necessário quanto viver a missão?
A afirmação de que ONGs não têm pressão por resultados é uma falácia perigosa. Na realidade, as organizações sociais vivem sob uma pressão extrema por impacto, captação, eficiência e prestação de contas. O custo administrativo precisa ser mantido baixíssimo, pois há uma expectativa quase irreal de que toda arrecadação vá diretamente para a causa. Marketing, inovação e comunicação são frequentemente negligenciados, embora sejam fundamentais para ampliar resultados.
Aqui reside o paradoxo e o preconceito estrutural denunciado por Dan Pallotta em seu livro “Uncharitable“: exigimos das ONGs resultados empresariais sem permitir que adotem práticas empresariais.
Outro ponto importante é o conceito de “dividendo social”, que precisamos fortalecer urgentemente no terceiro setor. Michael Porter e Mark Kramer chamam isso de “Valor Compartilhado“, onde o sucesso econômico e o impacto social são inseparáveis. Uma criança protegida e educada representa um retorno econômico e social muito superior a dividendos financeiros imediatos. Mas será que nós, como gestores do terceiro setor, temos clareza dessa métrica e desse retorno? Estamos preparados para comunicar e defender esse valor diante de parceiros, investidores e da própria sociedade?
Precisamos valorizar nossos gestores experientes, que há anos têm equilibrado esses desafios com dedicação e profissionalismo. E também precisamos ter coragem para nos questionar: estamos preparando adequadamente o terreno para líderes que vêm do mercado, para que possam somar forças e não tropeçar em nossas culturas internas?
Por fim, reforço meu convite: você, líder empresarial, gestor ou investidor, olhe para o terceiro setor com novos olhos. Invista, participe e fortaleça organizações sociais que já operam com foco em resultados mensuráveis e gestão profissional – e também aquelas que estão dispostas a evoluir nessa direção.
Afinal, o maior lucro que podemos almejar é uma sociedade mais justa, produtiva e digna para todos.
*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.
