E se o mundo voltasse a ser analógico? O convite subversivo de Wim Wenders

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Foto: Adobe Stock.

Por Rodrigo Fonseca Martins Leite

Gosto de ir aos cinemas sempre que possível. Confesso que conheço poucas pessoas que atualmente entendem a diferença entre assistir um filme numa sala de cinema e no streaming em casa. Posso afirmar que é análogo a distinção entre jantar no restaurante predileto e pedir a mesma refeição via aplicativo. Se ainda não me fiz claro, pergunto: faz diferença ouvir música como pano de fundo para lavar a louça ou colocar um disco de vinil para degustar com atenção num ambiente favorável? 

Para alguns, essas distinções não fazem a menor diferença ou pior – podem ser interpretadas como conservadorismo e ranzinzice perante a deusa narcísica chamada tecnologia. Corro o risco de ser interpelado com uma frase do tipo: “Agora só falta você querer ouvir música numa fita K-7!” 

Quero mesmo. Ou melhor, o personagem principal do filme mais recente do cineasta Alemão Wim Wenders – “Dias Perfeitos” – um limpador de banheiros de Tóquio – somente ouve música no toca- fitas do seu carro! Que tragédia…Só velharias na trilha sonora: Nina Simone, Van Morrison, Lou Reed, Rolling Stones – dinossauros ultrapassados, certo? 

Dialogando com meu texto anterior – “Envelhecimento saudável e a distância das zonas azuis” podemos inferir que se as gerações exclusivamente digitais já se referem jocosamente a pessoas de mais de 45 anos que ainda valorizam vinis e cassetes, imaginem o lugar destinado aos idosos dentro de uma sociedade tão vorazmente substitutiva. 

Voltando ao filme, não temerei ser acusado de dar spoiler –modernice que supõe que se alguém conta parte ou trecho de um filme ou série está automaticamente “estragando a surpresa” de quem ainda não viu. Como a fruição da arte e da cultura é uma experiência da subjetividade, cada qual que busque suas surpresas de modo mais livre… A película é uma ode ao mundo analógico, especialmente ao tédio deste mundo antigo, soterrado pelo motor turbo do século XXI.  

A experiência central do personagem é o silêncio e a repetição do cotidiano, quase hipnótica e circular. E o mais desesperador: sem um celular, notebook, streaming, mídia social para driblar o vazio da vida. 

Não queremos mais lidar com isso, lamento. O digital é a ilusão tirânica do preenchimento da vida e estamos dependentes desta sensação. E justamente do tédio tão horrendo e abissal nasce a reflexão, o insight e até a felicidade genuína neste filme. A poesia da realidade mais prosaica, aquela que vem à tona quando acaba a bateria do celular ou nos apagões da concessionária de luz, é análoga ao intervalo da programação da TV aberta no século passado: para os insones de plantão era a realidade acenando seus limites mas transmitindo a noção de que para um novo dia nascer, o anterior precisa morrer.  

Sol e lua, noite e dia, morte e vida, vazio e plenitude, inverno e verão, silêncio e ruído, repouso e trabalho. Para isso serve o cinema, a música, o teatro, a literatura, a poesia: nos falar do óbvio de infinitas maneiras. Assim aumenta a nossa chance de compreender algo essencial. Wim Wenders está numa contramão extremamente necessária. Tem que assistir numa sala escura, ritualizando, conectado consigo, anônimo, com o celular obrigatoriamente desligado…

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*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.

Sobre o autor: Rodrigo Fonseca Martins Leite é médico psiquiatra pelo IPq HCFMUSP, mestre em políticas públicas e serviços de saúde mental, produtor da mídia social “Psiquiatra da Sociedade”.