Presença e escuta para a construção coletiva de um bairro melhor para se viver

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O futebol de várzea pode ser um fio condutor para engajar moradores da periferia na busca por mais áreas de lazer, por melhoria na qualidade de vida e pelo combate a preconceitos

Imagem ilustrativa: Papo de Várzea

Por Marcelo Ribeiro Silva

A tarefa de melhorar a realidade de um território periférico para que seus moradores tenham mais qualidade de vida requer o diálogo contínuo com lideranças e moradores, com um apoio institucional estruturado.

Esse trabalho de longo prazo precisa ser construído pelas organizações sociais junto com a população, lado a lado, por meio de muitas conversas.

Exige também uma presença ativa e atenta para o desenvolvimento das potencialidades locais, incluindo-se desde os times de futebol de várzea até os ativistas e artistas.

Desde 2006, é possível ver de perto esse trabalho no Jardim Lapena, bairro com cerca de 15 mil habitantes, na zona leste de São Paulo (SP), onde a Fundação Tide Setubal administra, junto com a Sociedade Amigos do Jardim Lapena, o Galpão ZL, que é um espaço aberto da comunidade e gerador de oportunidades.

Todos esses anos ensinaram que nutrir continuamente a confiança entre a organização e a população, gerando empoderamento, faz com que, pouco a pouco, conquistas coletivas possam ser alcançadas, como o CEI – Centro de Educação Integrada, o posto de saúde, a coleta regular de lixo e o campo de futebol, e que assuntos como o machismo ou a homofobia sejam debatidos dentro de um campo de várzea.

Esses anos também mostraram que as mudanças de cultura se dão no longo prazo e não são lineares. A presença diária no território é um trabalho de idas e vindas, com avanços e percalços, desavenças e divergências entre lideranças locais e com a geração de novos consensos.

É um processo que demanda esforço para que haja escuta e partilha, mecanismos estes que permitem uma cidadania mais ativa e participativa e uma capacidade de renovação e de inovação coletiva.

Na região do Jardim Lapena, os 15 times de futebol reúnem cerca de 450 atletas. Eles consistem em um ponto de diálogo importante e em uma força propulsora de participação social, pois contam com uma capilaridade e com um conhecimento importantíssimo do território e da realidade local.

São gerações de avós, pais e filhos que compõem os times, se unem e se conectam e investem no esporte, muitas vezes com recursos próprios.

Essa capilaridade, coesão e solidariedade das agremiações esportivas foram essenciais na crise sanitária da Covid-19 porque possibilitaram que os donativos chegassem à ponta, para as pessoas mais vulneráveis na região e que de fato mais precisavam deles. Ao todo, a mobilização local somou 30 mil máscaras, sendo 1.370 com os logos dos times, e 1.208 frascos de álcool.

A própria Sociedade Amigos do Jardim Lapena, parceira institucional da Fundação na gestão do Galpão ZL – Rede de Inovação, Transformação e Empreendedorismo, equipamento aberto da comunidade, é fruto de uma mobilização dos times de futebol do bairro para obterem melhorias no campo.

A partir dessa demanda inicial, eles idealizaram a seguir a constituição da Sociedade. Assim como outras periferias, a região tem poucos equipamentos públicos municipais para o lazer e o esporte, sendo um deles o campo de futebol bem próximo ao Galpão ZL.

Diante desse cenário, um dos caminhos escolhidos pela Fundação para dialogar com as pluralidades locais foi promover, com os jogadores e jovens do futebol, discussões e formações sobre temas importantes como raça, gênero e saúde.

Jovens futebolistas têm tido acesso, por exemplo, a recomendações recorrentes sobre o uso de máscara e de álcool em gel para se prevenirem contra o coronavírus.

Há exemplos transformadores, como o projeto Hip-Hop Mulher, em São Miguel Paulista, que organiza atividades culturais e esportivas e de formação priorizando mulheres da cultura Hip Hop e interessados, com discussão, debate, troca de saberes e inclusão, independentemente do gênero, etnia, orientação sexual e identidades e conta com o apoio da Fundação.

Liderado pelo ativista Tiely, reúne 90 pessoas que participam dos jogos de futebol e debatem questões de gênero e temas como feminismo e machismo. Tudo é conversado abertamente dentro de um campo de futebol, colaborando-se para o combate a preconceitos de sexualidade arraigados na sociedade.

Outra experiência relevante reside no projeto Toque de Letras, realizado pela Fundação com o apoio da Fifa Foundation.

A iniciativa oferece futebol em três tempos e oficinas sobre cidadania, comunicação, Slam e futebol, ou seja, conecta o futebol a outros campos de conhecimento.

Só neste ano, cerca de 150 adolescentes aprendem, de forma lúdica e educativa, sobre assuntos como o racismo no futebol e nas artes e o bairro onde vivem.

Nas oficinas de audiovisual e locução, fortalece-se o letramento por meio de debates sobre a prática esportiva. Na prática do Slam, os jovens desenvolvem poesias que ecoam suas vivências, sentimentos e experiências.

Em 2019, lançaram o livreto “Minha escola tem história”, organizado pelo educador Rafael Carnevalli. Além disso, em um cenário sem coronavírus, o festival Tudo Junto e Misturado fecha as atividades do ano, mostra o aprendizado adquirido e oferece uma programação cultural, diversa e gratuita para mais de 150 famílias locais.

No intuito de combater o machismo em campo, a Fundação também passou a apoiar o time feminino local. Em uma das muitas rodas de conversas realizadas, as jogadoras de futebol apontaram a falta de um vestiário feminino no campo, o que lhes causava constrangimento e sensação de discriminação e exclusão.

A construção de um banheiro feminino no campo pela Fundação resolveu esse ponto, e as conversas sobre os vários tipos de preconceitos prosseguiram.

Esses poucos exemplos relatam uma forma de uma organização social atuar em um território, fortalecendo as pluralidades locais, por meio de diálogo e da criação de entendimentos que levam à compreensão dos assuntos e depois à transformação da realidade.

É fundamental que outras instituições filantrópicas apoiem atores locais nas regiões vulnerabilizadas, onde faltam infraestrutura e serviços públicos e sobram potência e criatividade, contribuindo assim para melhorar a qualidade de vida nas periferias e para diminuir as desigualdades de metrópoles como a capital paulista.

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Sobre o autor: 

Marcelo Ribeiro Silva é morador de São Miguel Paulista, periferia da Zona Leste paulistana, coordenador da Prática Local da Fundação Tide Setubal, atualmente Gestor do Galpão ZL – Rede de Inovação, Transformação e Empreendedorismo, com especialização em Gestão de Esportes FIFA e CIEDS – Gestão Estratégica de Esporte pela FGV e graduação em Administração e Habilitação em Marketing pela UNICID – Universidade Cidade de São Paulo. Atualmente, está cursando Sociologia e Política na FESPSP.


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