Participação, substantivo feminino

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participação feminina
Foto: Miguel Bruna via Unsplash

Por Andrelissa Ruiz

Desde o início da minha atuação no Jardim Lapena, zona leste de São Paulo (SP), acompanho processos participativos que envolvem a comunidade local e fortalecem o protagonismo no território. Nesses espaços, por muito tempo a atuação masculina foi imperativa, movida pelo machismo que cala as mulheres presentes ou até mesmo impede a participação delas, porque vem carregada de uma ideia de que cabe a elas a ação de cuidar, no privado, e não na vida pública.

No ano passado, assisti a essa realidade se transformando com a criação do grupo “Guardiãs da Comunidade”, atualmente composto por 130 mulheres que, voluntariamente, apoiam os moradores do Jardim Lapena em ações sociais. Este grupo nasceu no início da pandemia com o primeiro objetivo de colaborar com a entrega de álcool e máscaras pelo território, mas logo ganhou a confiança do bairro e passou a ser um movimento voluntário de mulheres que garante capilaridade nas ações daquele território, chegando onde as organizações sociais não chegariam.

E foi a partir dessas ações que essas mulheres perceberam seu valor para o território e compreenderam que é um direito de todos e de todas participar da vida pública, opinar nas decisões do bairro e ocupar os espaços públicos. Desde então, as reuniões do Plano de Bairro (movimento local por melhorias) tiveram suas cadeiras ocupadas por mais mulheres, fortalecendo as que já participavam e despertando novas lideranças femininas para o Jardim Lapena.

Apesar de ser uma história de sucesso, é preciso refletir sobre os fatores que permitiram a essas mulheres ocuparem esses espaços e qual o papel do terceiro setor no impulsionamento da participação local. Para isso, é importante que a organização social também se identifique como alguém que faz parte daquele território e, sendo assim, tenha abertura para atuar em parceria com a população local e outras organizações, além de abrir espaços para a participação. A cultura participativa precisa ser fortalecida e, muitas vezes, aprendida, visto que muitos espaços pelos quais passamos em nossas vidas trazem traços de uma cultura autoritária, em que sempre alguém manda e o outro obedece. A construção conjunta e a escuta ativa não são tão simples como parecem ser assim num texto.

Então, o terceiro setor tem um papel fundamental e até politicamente pedagógico de garantir estruturas participativas na gestão de suas organizações e na relação com seu público. A gente aprende a participar participando. Não há escolas, não há cartilhas. Participar é conviver coletivamente, encaminhar consensos e debater dissensos.

Entretanto, a existência de espaços participativos não garante a participação. Uma equação que envolve variáveis da realidade local precisa ser resolvida. Ainda mais nas periferias das grandes cidades, nas quais o ato de participar concorre com o ato de sobreviver. A sensibilidade de quem organiza os espaços de participação aliada à escuta do território pode resolver essa equação que, muitas vezes, tem desafios com resoluções simples como o horário do encontro, a promoção de atividades para crianças para que as mães possam ir às reuniões com seus filhos, a oferta de um lanche para quem vem direto do trabalho ou mesmo para a dona de casa que vai deixar de fazer a janta neste dia.

A vida das pessoas é complexa, e participar não pode se tornar mais um peso. Participar precisa ser a esperança de que algo pode melhorar, e ninguém precisa se sacrificar para isso. Neste sentido, a participação das mulheres se torna ainda mais necessária para nossa reflexão: são elas que acumulam cargos (donas de casa e ainda um trabalho fora), são elas que sofrem violência doméstica, são elas que geralmente ficam com os filhos quando eles não estão na escola.

Enfim, colaborar para que todos e todas tenham as mesmas oportunidades para participar da sua vida, sobretudo a vida pública, é contribuir com um mundo mais justo, no qual todos possam participar da construção das suas vidas e dos seus territórios. Fortalecer a cultura participativa, mesmo que num primeiro momento a nível local, é garantir mais olhares para uma mesma questão, significa trazer diversidade e pluralidade para o diálogo. A escuta efetiva e a conexão de ideias, essas sim fazem toda a diferença.

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Andrelissa Ruiz é comunicadora social, formada pela Universidade Cruzeiro do Sul, com especialização em redes digitais e sustentabilidade pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (USP) e mestranda em Mudanças Sociais e Participação Política pela Escola de Artes, Ciências e Humanidades, também da USP. Trabalha com comunicação comunitária e mobilização social desde sua formação e foi premiada em 2007 com o Prêmio Vladimir Herzog de Novos Talentos do Jornalismo. Atua na Fundação Tide Setubal desde 2010 com a produção de veículos comunitários, como também em articulações com moradores, organizações e poder público em prol do desenvolvimento de periferias urbanas. Atualmente é coordenadora de Prática Local da Fundação Tide Setubal.


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